Capítulo 9 — A medição na vega
O agrimensor subiu com os barcos de outubro, e a vindima mal estava nas tinas quando a medição começou.
Era um homem seco e enxuto do pessoal do procurator, tostado de sol até a cor dos próprios instrumentos, que disse o nome uma vez no cais e nunca mais precisou dele; dentro de uma feira a vega alta inteira o chamava de o medidor, e ele atendia por isso do jeito que a groma atendia ao prumo: exatamente e sem opinião. Marcellus gostou dele dentro de uma hora. Gostou do jeito como o homem lidou com as plantas que o distrito tinha de si mesmo — os desenhos velhos do pagus, trazidos do sótão com cerimônia —, olhando cada uma e a pondo de lado, virada para baixo, com delicadeza, como se põe de lado o testemunho de parte interessada; e gostou do que o homem disse na primeira manhã, de pé na cabeceira da vega alta com a neblina ainda nos canais, quando Marcellus lhe perguntou por onde tencionava começar.
— Por um canto em que todo mundo concorde — disse o medidor. — Sempre há um. Trabalha-se para fora a partir da concordância, excelência. É o único chão que aguenta.
Começaram então pelo canto do povoado do santuário, onde uma velha comporta ancorava três divisas de uma vez e homem nenhum jamais a disputara, e foram trabalhando para fora, socalco por socalco, propriedade por propriedade, do jeito que Marcellus planejara setembro inteiro, como uma campanha de visitas; e a vega apareceu para assistir. Não à toa. Dentro de um dia ele entendeu que o assistir era, ele mesmo, uma espécie de atestação. O pagus conhecia cada divisa dos seus limites a um palmo — conhecia-as andando, ao anoitecer, com o jarro no quadril; conhecia-as do jeito que um homem sabe onde acaba o próprio corpo — e juntava-se a cada dia de medição em dois e três ao longo dos muros, calado, grave, perito, vendo a vara descer do jeito que o ordo vira o touro descer em julho: para ver a coisa feita direito.
O método era o método do mandato, enfim feito carne. Em cada divisa duvidosa os vizinhos eram intimados — vinham antes da intimação, quase sempre, já estando em cima do muro — e o medidor armava a sua groma onde as linhas de visada servissem, e os prumos se aquietavam fora do vento da manhã, e a vara de dez pés ia ponta sobre ponta socalcos acima, com dois dos meninos do agrimensor contando os comprimentos em voz alta, um contra o outro, a conta guardada como se guarda a de moeda; e Marcellus ficava junto da pedra ou da vala ou da oliveira velha que marcava o canto em questão, com a folha do censo daquela propriedade na mão, e lia em voz alta o que a escrita alegava, e a vara relatava o que o chão juraria. Depois os vizinhos, sob juramento, um de cada vez, as mãos fora dos cajados: esta vala e não aquela; da pedra fendida até a água; como meu pai me mostrou, e o pai dele mostrou a ele. Os juramentos eram a escrita mais antiga do vale. Marcellus passara a pensá-los assim e não achava o pensamento brando, porque eles se comportavam como escrita: concordavam entre si, transportavam-se de homem para homem e de ano para ano, e eram guardados — ele ouvia isso nas vozes que recitavam — numa fórmula de palavras, gasta lisa de tanto passar de mão em mão, da pedra fendida até a água, como meu pai me mostrou: a vega inteira um registro que nunca vira cera e nunca perdera uma folha.
E contra esse registro, o da cidade começou a falhar.
Falhava de dois modos, e ao terceiro dia de medição Marcellus poderia dizer de antemão, ao entrar numa propriedade, de que modo ali falharia, porque as duas falhas andavam com duas espécies de companhia. Nas margens pobres, entre os pequenos possuidores, lá em cima onde o socalco se quebra contra o espinheiro da encosta, folha e chão concordavam — quase; uma tira perdida para um muro que desabou aqui, uma horta mordida do mato ali; o tempo honesto de quarenta anos. Era na terra boa que a escrita saía errada, e saía errada para baixo, sempre para baixo, do jeito que a água vai sempre para o mar. Uma propriedade assentada em vinte iugera que a vara fazia trinta; os dez de sobra não em algum canto esquecido, mas no coração da parcela, vinha em plena produção, como se um terço da terra tivesse saído do registro e seguisse rendendo, quieto, no mundo. Um vinhedo velho, conduzido baixo em fileiras ordenadas que qualquer criança em cima do muro sabia contar, assentado na folha como pasto bruto — pastagem de inverno, dizia a escrita; vinho, dizia o chão, e vinha dizendo, pela grossura das cepas, havia uma geração. Da primeira vez, Marcellus questionou a folha em si: erro velho, avaliador preguiçoso, terra beneficiada depois da escrita e nunca redeclarada. O medidor, que fizera esse trabalho em três províncias e oferecia opiniões do mesmo jeito que dava o nome, uma vez e nunca mais, olhou um tempo pelas fileiras ordenadas e então disse:
— Pasto é preço, excelência, não descrição.
E mudou a groma de lugar; e foi esse o comentário inteiro dele sobre o distrito, e bastou. Sub-medida e sub-nomeada: as duas falhas andavam na companhia da terra boa, e a terra boa naquele pagus andava na companhia — Marcellus sabia das suas listas, conferidas cada noite à lucerna contra a vara do dia — de um certo conjunto de nomes: a garantia dos emprestadores, os amigos dos lançamentos antigos, as propriedades cujas dívidas dormiam em Tarbessa. O erro tinha direção. Escrevera essa frase a Corduba em setembro como inferência tirada das estantes. Outubro pôs a vara nela, socalco após socalco, e a inferência virou estrada: dava para caminhar por cima.
Chegaram à cabeceira da vega alta no oitavo dia, à tarde, com a luz já indo longa e amarela, e ali Marcellus encontrou a divisa para a qual vinha caminhando o mês inteiro sem lhe conhecer o rosto.
A propriedade abaixo da cabeceira do canal era terra boa e parecia melhor do que boa: socalcos em ordem, uma figueira velha no muro do quintal dourando nas bordas, a aradura de outono começada em linhas escuras e limpas, e ao longo do canal — ele notou antes de entender, do jeito que se nota um arreio bem cuidado — as pedras do curso d'água esfregadas e assentadas por dois comprimentos além da própria vez daquela casa, coisa que alguém, claramente, fazia todo ano, sem que escrita nenhuma em lugar nenhum lho exigisse. Havia gente na terra: um homem e um menino já crescido arando o socalco de longe; um velho de pé na porta da casa, com um cobertor em volta apesar do sol; uma mulher subindo o caminho do canal com um jarro no quadril, que tomou a comitiva da medição num único olhar demorado e nivelado e não parou de andar. Ninguém veio até o muro. O pagus seguira a vara o mês inteiro como se segue uma demanda; aquela casa seguiu trabalhando como se a medição fosse tempo na serra; e Marcellus, que fora observado neste vale de todos os modos como se pode observar um homem, achou que este modo era o mais estranho de todos.
A folha do censo daquela terra dizia: M. Fulvius. Quarenta iugera. Vinha, oliveira, cereal, nas suas proporções; os lançamentos em ordem, ano após ano, um assento modelar; e na cabeceira do socalco de cima, meio dentro da linha do arado, estava a pedra de divisa com o mesmo nome cortado nela, letras velhas, líquen nos sulcos, M. FVLVIVS, posta ali por ninguém vivo e respondendo, como pedra responde, pergunta nenhuma.
— Quem trabalha esta terra? — perguntou Marcellus.
A testemunha-vizinha daquela divisa era um pequeno possuidor chamado Reburrus, homem cuidadoso de meia-idade que jurara os próprios cantos naquela manhã na fórmula gasta de palavras e depois ficara, a tarde inteira, à margem da comitiva — porque tinha letras, Marcellus soubera; o único homem do pagus que tinha; ensinado dois invernos em Cardena quando menino e agora o leitor da vega para tudo quanto precisasse ser lido, e passara o mês lendo a própria medição, de esguelha, do jeito que se lê carta alheia. Respondeu à pergunta do jeito que a vega respondia a tudo, com o fato e nem um dedo além.
— Os Attenes trabalham. Três gerações. O velho ali na porta nasceu nela.
— E Fulvius?
Reburrus olhou um momento para a pedra, e Marcellus viu-o escolher — dava para ver a escolha — entre a segurança de ser curto e o perigo de dizer bem uma coisa verdadeira.
— Leio o nome dele para eles nessa pedra desde que tenho letras — disse Reburrus. — É tudo do homem que eu cheguei a conhecer.
Os meninos do medidor correram a vara socalcos acima enquanto durou a luz. Os quarenta iugera da folha eram quarenta no chão — quase exatamente; aquele assento, sozinho no trabalho do dia, estava certo; e Marcellus ficou junto da pedra na luz comprida, com a folha na mão, e entendeu o que tinha diante dos olhos, e o entendimento veio do jeito que viera o rolo da cópia limpa em agosto, de uma vez, frio. Aqui estava a outra espécie. Em junho listara, nas estantes intocadas, anomalias que não se permitira nomear: assentos perfeitos demais; possuidores que pagavam no dia, ano após ano, pela arca da cidade, e não eram vistos em feira nenhuma, alistamento nenhum, altar nenhum, tribunal nenhum. Terra debaixo de nome nenhum ele achara de noite no tabularium: possuidores derretidos para fora da escrita com as somas reapuradas atrás deles. Agora, na última luz de um campo de outubro: um nome por cima de terra — um possuidor feito de tinta, sentado em quarenta iugera verdadeiros, correto em cada coluna, e a família que arava e podava e enterrava naquela terra havia três gerações não estando no registro em lugar nenhum. Os homens sumidos e o homem inventado eram as duas mãos de um só artífice. Ele ainda não enxergava para que servira a segunda mão — o assento não abrigava nada, não escondia iugera nenhum, não fraudava lançamento nenhum; era exato; era apenas mentira de ponta a ponta, um vaso varrido, enfeitado e navegando vazio, como se esperasse uma carga que o ano dos quatro imperadores impedira de ser embarcada algum dia.
— Anota a pedra — disse ao escrevente do agrimensor. — Anota o assento, e que os ocupantes não são do registro. Nada mais hoje.
O curso formal ele já enxergava, e ele queria a sua estação: vizinhos depostos sob juramento, na forma devida, com as perguntas lavradas a limpo e um oficial para as tomar cujo interrogatório se sustentasse num tribunal — cuja pauta abria na primavera; os depoimentos seriam tomados na primavera. Não desceu até a casa. Tinha vergonha do motivo e examinou-o mais tarde, voltando a cavalo no lusco-fusco, com a honestidade que guardava para o fim do dia: não era delicadeza, e não era procedimento. Era que um homem à porta daquela casa podia lhe fazer uma pergunta — o velho assistira à medição inteira da porta, ereto, com o sol descendo pelo cobertor — e toda resposta que Marcellus possuía estava escrita na letra da cidade, no latim alto, na cera da cidade; e na cabeceira daquele socalco, pela primeira vez desde abril, ele não tivera certeza de que a letra da cidade e a sua fossem letras diferentes.
A pedra ficou com ele enquanto a medição descia o pagus — enquanto as listas engrossavam, enquanto a direção do erro se confirmava propriedade após propriedade, enquanto outubro escurecia para novembro — do jeito que uma farpa fica na palma da mão e obriga cada aperto a se referir a ela. Ele subira este vale acreditando que o registro estava doente e que o chão o curaria: ponha-se a vara no campo, o juramento na divisa, e a escrita há de vir para o certo, porque debaixo de toda a tinta está o mundo, e o mundo pode ser medido. E podia. A vara não mentia; o registro sem cera da vega não mentia; a medição era o trabalho mais verdadeiro que ele já comandara e ia dar prova bastante para mover um procônsul. Mas na cabeceira do canal o próprio mundo fora feito sustentar a mentira. Pois a pedra era mais velha que a fraude por uma geração — falsário nenhum a pusera; o líquen dizia isso, e a linha do arado gasta em desvio deferente em volta dela, funda de uma geração, dizia isso; algum Fulvius dos lançamentos antigos tivera terra ou pretensão de terra por ali um dia, e morrera ou fora embora, deixando o nome na pedra do jeito que os nomes ficam. O artífice não plantara o seu fantasma. Achara um já enterrado, de pé na terra, envelhecido honesto pelo tempo, e entendera quanto vale uma pedra: construíra o seu assento em cima dela como o homem prudente constrói sobre a rocha, para que varas e juramentos e diligência, vindo depois, achassem a mentira já crescida dentro do chão e a chamassem de verdadeira.
No último dia do mês, ao meio-dia, um homem pequeno, asseado e paciente ficou um tempo à beira do campo vendo a vara trabalhar, não falou com ninguém e foi-se embora antes que mudassem as linhas de visada; e Marcellus, que não o conhecia, conheceu-o. Na feira seguinte, Cardena falava de iugera como falara do triunfo. Na outra — sentiu-o do jeito que sentira a cidade ficar sabendo das cópias seladas, através das paredes, antes de qualquer palavra — a conversa tinha atravessado a cumeeira e estava sendo pesada, numa câmara-forte que ele nunca vira, pela paciência que era dona do agente; e a graça da estação estava gasta: fosse quanto fosse que a correção viesse a custar, as partes que iriam pagar por resistir a ela tinham agora o inverno inteiro para se preparar, tanto quanto ele tivera para a propor.
Assentou o dia, fechou o livro do pagus e ficou um tempo sobre a última folha com a lucerna queimando até o fim, outubro quase no fim, a medição quase feita, as provas quase prontas; e o que ele via ao fechar os olhos não eram as colunas nem a vara. Era a pedra — o arado curvando-se em volta dela, o líquen dentro das letras, o nome que juramento nenhum podia produzir e juramento nenhum podia remover; a página descida para dentro do chão e coberta de mato. O chão era a testemunha melhor. Ele ainda acreditava nisso; apostaria a correção nisso. Mas vira agora o que um homem paciente com um mandato podia colher de um chão que apenas caminhara.
Uma pedra de divisa com nome de fantasma. Estava de pé havia trinta anos. Ficaria de pé cem.