Capítulo 8 — Um mandado para medir
A carta para Corduba levou-lhe nove dias, e tinha quatrocentas palavras quando partiu; e ele veio, nos anos seguintes, a contar esses dois números entre as medições mais verdadeiras que já se tiraram dele.
O primeiro rascunho era verdadeiro. Escreveu-o numa noite, quente ainda do arquivo, e era o melhor relato simples que já escrevera de coisa alguma: os possuidores sumidos e as costuras cicatrizadas; o rolo renascido, a sua tinta única e a sua tarde única; as certificações, e a letra das certificações, e o nome debaixo da letra; e o que ele acreditava seguir-se dali, posto em ordem — que o registro fora reescrito para abrigar certas propriedades do lançamento; que a reescrita fora comprada; que o comprador vinha comprando havia trinta anos e comprava ainda. Releu duas vezes e entendeu que escrevera não uma petição, mas uma acusação. E acusação de quem? De um equestre morto cujas contas foram examinadas em Corduba e achadas em ordem. Cuja comissão fora criada nas repartições do procurator, instruída por elas e recebida de volta nelas com agradecimentos. Cujos rolos certificados jaziam havia cinco anos na câmara-forte de Corduba, acreditados, citados e — obrigou-se a escrever a palavra — usados: lançamentos tinham sido fixados a partir deles; quotas tinham subido o vale montadas nas somas deles. Não havia no rascunho uma só frase que acusasse a repartição que ele servia. Não havia nele uma só frase que não roçasse com a manga a repartição que ele servia. Os mortos têm herdeiros, e herdeiros têm patronos, e repartições têm memória; e a primeira grande petição de um moço não deve exigir do seu leitor que condene a própria câmara-forte no ato de a deferir. Passou a face lisa do estilete sobre o trabalho da noite, devagar, como quem passa a grade num campo, e ficou um tempo no escuro sobre a cera morna e em branco; e foi essa a noite em que aprendeu que um fato, em administração, não é coisa que se declare; é coisa que se gasta, e há estação para o gastar.
O segundo rascunho era prudente. Pedia tudo e não explicava nada: autoridade para medir, para intimar, para tomar depoimento — requerida para a melhor correção do registro, na frase corrente. Relido, era pior que o primeiro. Corduba nada concedia a vaguezas em setembro, com a arrecadação pela frente e cada distrito da Baetica alegando o seu ano; pedido sem razão é menino pedindo espada para usar à cintura; Celer leria duas linhas e o poria debaixo da pilha. Raspou esse de pé mesmo.
O terceiro rascunho ele construiu do jeito que o pai construía muros: uma fiada de cada vez, sem ornamento. Há neste distrito terra que não paga nada, porque o registro diz que ela não está lá. Escreveu essa frase primeiro e pendurou nela a carta inteira. O registro errava; o erro corria sempre para um lado, sempre para baixo, sempre em favor de certas propriedades; o erro era antigo, entrincheirado e já incorrigível a partir das estantes apenas, sendo a escrita testemunha e ré ao mesmo tempo. Portanto: licença para medir. Um mandado para entrar em terra alheia; para lhe assentar a vara de dez pés; para intimar os vizinhos de toda divisa duvidosa e lhes tomar as respostas sob juramento. E o empréstimo de um agrimensor do próprio pessoal do procurator — possuindo o distrito medidores, escreveu ele, cujo pão dependia das respostas. De Vibius Crescens a carta dizia uma coisa só, e levou-lhe um dia fazê-la dizer nada além: certos totais foram reapurados, por uma mão hoje fora do alcance de perguntas. Orgulhou-se da frase e desgostou do orgulho. Era rigor, disse a si mesmo; nomeie-se o que se pode provar, e o dono da mão era prova para um tribunal, não para uma carta. E era rigor. Era também a primeira frase que ele construíra para o conforto do leitor e não para a verdade do assunto; e lia-se lindamente; e ele notou que se lia lindamente, e assentou o notar onde já começara a assentar essas coisas.
As provas foram junto, e as provas eram de Philon. Três dias o escravo copiou: o arrendamento com a sua divisa órfã; as folhas do censo do pagus cicatrizado, lado contra lado; o lançamento antigo contra o novo; os resumos do rolo renascido, copiados com tal exatidão que a cópia reproduzia a própria uniformidade que condenava o original — Philon assentando dez anos idênticos nas suas letras retas de soldado e comentando, em três dias, nada. Para que cópias viajem, é preciso que sejam acreditadas, e, para serem acreditadas, precisam levar um selo que não seja o da parte interessada; de modo que Marcellus convocou o quaestor e lhe exigiu — o verbo era do próprio mandato — o seu selo em cada cópia, como concordando com o original. O quaestor veio embrulhado na sua cerimônia, selou como um sacerdote e leu enquanto selava, como um quaestor. O que entendeu do que leu, Marcellus não soube dizer. Mas naquela noite a cidade sabia — Marcellus sentiu-a saber, através das paredes, do jeito que se sente o tempo virar antes de o ouvir — que o comissário mandava rolos velhos sob selo para Corduba; que alguma coisa nas estantes fora achada; e que o achado tinha uma direção. Precisara do selo e comprara-o com o segredo. Foi esse o preço que o próprio procedimento fixou, e ele pagou-o de olhos abertos, e assentou-o.
A outra carta daqueles nove dias foi mais difícil, sendo para um homem que nunca lhe fizera senão gentilezas.
Publius Caelius Firmus, senador, de posto pretoriano, fora amigo do seu pai do jeito que senadores são amigos de quatrocentos homens, e era o patrono de Marcellus do jeito que importava: o nome andara à frente dele em toda sala em que já entrara em Corduba, e abrira várias que ele nunca vira abertas. Encontrara o homem duas vezes na vida: aos nove anos, ao lado do pai, num salão onde a sua tarefa inteira era ficar parado; e em Corduba depois do luto, quando foi olhado pelo tempo de uma taça de vinho, e aprovado, e entendeu, voltando a pé para casa, que a aprovação fazia parte da herança — um bem do espólio, como a parcela do morro, e, como a parcela do morro, coisa que não se vende. Carta de cliente devia-se duas vezes por ano, como juro, e ele deixara o verão passar em branco — podia alegar o arquivo; nem se deu ao trabalho de o alegar consigo mesmo. Escreveu-a agora com a petição a Celer acabada ao lado do cotovelo, e o tempo era a gramática inteira da carta, embora nem uma palavra dela o dissesse: dever, saúde, a honra da comissão; os registros careciam de correção e ele os corrigia; o distrito arcaria com o seu lançamento e ainda algo por cima; esperava, na primavera, mandar do trabalho uma conta que o seu patrono não se envergonhasse de ver lida em voz alta. Nada pedido. Nada necessário — ainda. Só o nome, renovado e de pé, para que, quando a sua petição cruzasse a mesa do procurator, subindo, não a cruzasse nua. Uma petição, dissera-lhe uma vez em Corduba um velho escrevente que vira quarenta anos delas, viaja como viaja a moeda: vale pelo metal, mas corre pelo cunho.
Escreveu bem a carta e não se envergonhou de nada nela. Apenas notou — o notar estava virando o imposto que ele pagava sobre cada ato — que escrevera a Celer sobre terra e a Firmus sobre si mesmo; que as duas cartas eram instrumentos; e que um ano antes teria dito que só uma delas era.
Depois esperou, e a espera foi a sua própria lição. Corduba ficava a quatro dias descendo e outros tantos subindo, para o correio comum; mas mandado não é resposta: mandado se lavra, se copia a limpo, se sela, se assenta; a resposta não podia vir dentro de duas feiras, e não veio. Gastou o intervalo preparando o que ainda não podia licitamente começar: escolheu o primeiro pagus — a vega alta, onde as brigas corriam mais densas — e montou o livro dele: cada divisa duvidosa listada com os nomes dos vizinhos, o nome de cada vizinho contra os juramentos que lhe seriam pedidos, a ordem do caminhamento planejada socalco por socalco como uma campanha de visitas. A cidade viu-o preparar-se e não soube ler o preparo. Silo apareceu duas vezes, caloroso como sempre, em recados feitos de propósito, e pescou com a arte inteira de um duovir.
— Dizem na cidade, excelência, que o senhor mandou vir um medidor.
— Dizem.
— Uma medida — disse Silo, grave, jubiloso — é o começo de toda construção honesta.
E foi-se embora mais feliz do que viera, sem nada ter recebido, o que era o dom particular de Silo: sabia construir uma esperança com uma porta fechada.
A resposta veio no último dia de setembro: dois documentos e uma carta. O primeiro documento era o mandado, escrito a limpo, o selo inteiro: …entrar em terra, medir, intimar e interrogar sob juramento todas as pessoas de qualquer condição, tocante às divisas, propriedades e lançamentos do distrito de Cardena… — as cláusulas que pedira, concedidas por inteiro, e uma que não pedira, sobre embaraço, que se lia como uma espadinha posta em silêncio sobre a mesa. O segundo documento era uma carta curta designando-lhe um agrimensor do pessoal do procurator, para subir com os barcos de outubro, com groma e varas e tudo.
A carta era Celer inteiro:
Pedes licença para medir. Mede. — As tuas provas são boas. Mandei que as lessem duas vezes, e a segunda leitura achou o que a primeira achara: terra debaixo de nome nenhum, nomes por cima de terra nenhuma, e totais em paz demais uns com os outros. Paz dessa espécie se compra. — Hás de querer saber o que me interessa nisto, para poderes servir ao interesse; é próprio num moço; aqui está. Não os mortos. Como os registros vieram a mentir é matéria de historiadores, e historiador é barato. O que a mentira retém é matéria do fiscus. O Imperador está recobrando, mundo afora, o que as desordens recentes deixaram escapar; revogou imunidades mais velhas que os muros da tua cidade; o teu vale não será a única exceção do mundo. Portanto: mede, prova e manda-me um lançamento que eu possa defender, e eu o defenderei, e a ti. Mas não caces homens, comissário. Caça iugera. Iugera pagam impostos, não fazem discurso em tribunal e não têm viúvas. Os homens vêm à rede por si mesmos; homem sempre vem; e, quando vierem, que te achem segurando a vara e não a faca. — Em dezembro estarei à espera da entrega do ano, e lembro-te do que te disse em maio: quem reparte responde pelo que reparte. Fizeste o distrito legível. Distrito legível paga.
E por baixo, na letra rápida do próprio procurator, um pós-escrito:
Caelius Firmus escreve que conheceu teu pai e acompanha com afeto o trabalho do filho. És afortunado nos teus amigos. Sê digno das cartas deles.
Leu a carta três vezes, e o pós-escrito cinco.
O mandado viera. Era esse o fato, e era tudo o que pedira; a inquirição tinha mãos agora, e outubro poria a vara na primeira divisa falsa da vega alta. Mas ficou muito tempo à janela com o pós-escrito, fazendo o que já não conseguia deixar de fazer, que era a soma. Mandara provas bastantes para mover um leitor honesto. Mandara também, no mesmo mês, renovar um grande nome, e deixara-o de pé onde o leitor o veria. E a concessão viera — pelas provas? pela estação, com a arrecadação precisando dos seus números? pelos sestércios recuperados que o fiscus já sentia no gosto? por seis palavras calorosas de um senador? Nunca saberia. Era esse o achado. Não que o favor fosse corrupto; nada tão limpo; mas que o favor dá resultados e retém causas, de modo que um homem nunca mais pode chamar o próprio êxito a contas — não pode, nunca mais, dizer limpamente isto eu ganhei e isto me foi dado. Quem faz contas que aprenda a assentar a coisa como ela é: a concessão numa coluna e, na outra, onde a causa deveria estar, um branco. Não nada — um branco; desses que se preenchem sozinhos mais tarde, com números de sua própria escolha.
Acreditava no trabalho — ainda, inteiramente; o trabalho estava mais verdadeiro esta noite do que estivera em abril, porque agora tinha inimigos com rosto e um campo de prova debaixo do céu. Mas aprendera a gramática de setembro, e passaria o resto da vida, embora ainda não o soubesse, declinando-lhe os casos: a verdade não ia a Corduba pelo próprio pé. Ia montada. E os cavalos tinham dono.
Pôs o mandado no estojo de documentos ao lado do mandato, e o estojo ficou mais pesado, e ele gostou do peso; e notou o gostar, e desta vez não lhe deu nome errado, não tendo até ali nome nenhum para ele.
Depois mandou recado vale acima ao primeiro pagus: passada a vindima, começaria a medição.