Capítulo 6 — Nundinae
Na manhã da feira, Aunia acordou antes da luz, como acordava a cada oitavo dia, e fez a primeira contagem deitada de costas no escuro: o que desceria a colina, e como tinha de voltar.
Descendo: dois queijos, dos duros, que viajam, embrulhados em folha e atados. Ovos, vinte e quatro, deitados em palha no cesto estreito que o menino conseguia carregar sem balançar, se vigiado. A lã que fiara desde a última feira. A primeira apanha das favas. De volta: sal; a lâmina do facão recalçada, que o ferreiro já prometera duas vezes; o moleiro pago, porque taxa que fica começa a crescer; e moeda — antes de tudo, moeda — porque a escrita em Tarbessa comia uma vez por ano, nas Saturnais, e comia só moeda, e casa sensata começava a juntar em julho o que dezembro ia comer. Tinha o todo contado antes que os pés achassem as sandálias.
Boutius já estava no terreiro, garfando a palha enquanto o escuro ainda segurava a poeira. Ele não iria; a debulha estava feita, mas uma lavoura nunca está; e o velho não ia mais à feira — a colina tinha crescido durante a noite, dizia ele, como as colinas fazem para os velhos. Sentava-se junto ao fogo com as mãos nos joelhos e lhe dava o seu encargo à porta, o mesmo em toda feira.
— Traga notícia, não traga mercadoria — disse ele. — Notícia pesa menos.
Desceu pela propriedade na primeira claridade cinzenta, o menino à frente com os cestos, e fez o que fazia toda manhã de feira sem querer fazer, do jeito que a língua conta os dentes. A cidade tinha uma escrita a respeito daquela terra — sabia disso como sabia que havia um mar: por outras pessoas — e a escrita dizia quarenta iugera. Ouvira o número a vida de casada inteira e nunca uma vez o usara. Nada na terra respondia a ele. O que a terra respondia era outra coisa, e ela foi descendo por dentro disso agora: o socalco de cima, que o avô do marido arrancara do espinheiro com a barra de ferro, três dias de arado em solo fino de pedra que dava o trigo mais duro; as vinhas abaixo dele, plantadas com moeda emprestada antes do casamento dela, num ano em que não havia outra moeda no mundo, e a moeda ainda não acabada de pagar; as oliveiras, que tinham visto tudo e não esperavam nada; a figueira que o sogro plantara no ano em que Boutius nasceu, sombreando agora a terceira geração a quem se contava isso; o canal, e as pedras do canal, que a casa dela mantinha limpas duas braças além da própria vez, porque a casa dela sempre as mantivera assim. E na cabeceira do socalco de cima, a pedra de letras: talhada com marcas que nenhum dos seus talhara, mais velha que o casamento dela, que a terra carregava como um boi carrega uma marca que ninguém vivo se lembra de ter posto. Tocou-a ao passar, com a mão espalmada, como tocava o esteio do portão. Vivia-se com pedra. Em trinta anos, nunca lhe parecera ser assunto de ninguém senão da pedra.
Na segunda curva do caminho já eram quatro mulheres e um jumento; na ponte, uma feira.
Cardena no oitavo dia era o vale virado pelo avesso: a produção da vega entrando por todos os portões, a moeda da cidade saindo ao encontro dela, e entre as duas a margem clara e barulhenta onde as duas marés negociavam. Estendeu o pano onde sempre estendia, terceiro arco a contar da fonte, entre a queijeira da aldeia do santuário e o velho dos cestos, e vendeu como a mãe lhe ensinara: diga o preço uma vez e depois cale. A contagem lhe vinha sempre na língua da mãe; o latim era para os totais. Quando a mulher do oleiro contestou os ovos — contestava-os toda feira, era a sua forma de cumprimento —, Aunia recontou a soma em voz alta, ovo por ovo e asse por asse, num ritmo em que contestação nenhuma sobrevive, e a mulher do oleiro pagou, satisfeita, tendo tido a sua cerimônia.
Sob a arcada, onde ficava a sombra, o agente do Tarbessano mantinha a sua mesa de dia de feira.
Era um homem pequeno, limpo, paciente, e ela nunca uma vez o vira com pressa, pela mesma razão por que o rio nunca tinha pressa: tudo vinha até ele. Os homens paravam na mesa dele como param na do barbeiro — coisa regular, necessária e um pouco vergonhosa — e renovavam o que não podia ser pago, e faziam a sua marca, e iam embora mais leves de rosto e mais pesados de cera. Cumprimentou-a pelo nome quando ela passou, com agrado, do jeito que a escrita cumprimenta: o nome e a soma no mesmo fôlego.
— As Saturnais ainda vão longe — disse ele, querendo dizer que estavam perto.
— Hão de nos achar prontos — disse ela, querendo dizer que não sabia.
E, como perguntava todo ano, na voz de quem pergunta pela saúde, perguntou se Boutius tinha tornado a pensar nas vinhas.
— As vinhas estão dando — disse ela, e seguiu; e sentiu a troca fechar-se atrás de si, pequena e exata, como uma tábua que se fecha sobre os cordões: perguntado; respondido; inalterado; passado adiante para mais um ano de uma paciência que não era bondade.
A grande carga da feira naquele dia foi coisa que ninguém pesou e todo mundo carregou. O Imperador, diziam, tinha ganhado a guerra de longe, e de alegria queimara em Roma as escritas das dívidas. Todas, diziam uns. Só as velhas, diziam outros. As da cidade também, disse um menino, e foi levado a melhor juízo por um tapa da própria avó. Na fonte, as mulheres manusearam a notícia do jeito que se manuseia fruta fora de estação, querendo e duvidando no mesmo gesto. A mulher moça do oleiro acreditou inteiro, e brilhou, e nomeou o que a casa dela devia como se dizê-lo em voz alta dentro da boa notícia fosse dissolvê-lo. Uma velha da vega de baixo disse que imperador perdoa o que se deve a imperador, quando perdoa; e que homem nenhum ainda queimou escrita que dissesse que deviam a ele; incêndio, disse ela, corre para o outro lado. Aí olharam para Aunia, porque era conhecida pela sua conta.
— O dinheiro da vinha não é devido ao Imperador — disse Aunia.
Foi o fim do assunto naquela fonte. E, voltando para o seu pano, pensou — não disse — que tudo o que a casa dela devia tinha uma escrita, numa câmara-forte, em outra cidade, e que tudo o que era devido à casa dela não tinha nenhuma: os dias emprestados na colheita, o pão levado a uma lareira doente, a água repartida num junho seco, a lã da mãe dela que já andara para três casamentos. Tudo isso ficava guardado do outro jeito, no registro mais antigo, o que fica atrás dos olhos, e que só queima quando a cabeça queima. O Imperador não podia queimá-lo e o homem da febre não podia cobrá-lo. Era o único livro que a vega jamais mantivera, e ninguém de toga uma vez sequer pedira para vê-lo.
Havia notícia menor debaixo da grande notícia, como sempre há cevada debaixo do trigo. Um homem de Corduba, diziam, estava sentado na sala dos registros da cidade e sentava-se ali desde abril, lendo. Lia o dia inteiro. Tinha as chaves — as duas chaves, disse a mulher do homem que varria a basílica, na voz de quem informa que um hóspede dorme de botas. Uns diziam imposto novo. Uns diziam lançamento novo, que era a mesma palavra com mais anos dentro. As mulheres mais velhas diziam que avaliador era como ano de cheia: vinha um por geração, fizesse-se o que se fizesse, e o sensato era construir alto e viver pequeno. Aunia ouviu aquilo como a vega ouvia toda notícia da cidade: a um afastamento, como tempo parado na serra — observado, comentado, assunto de ninguém nos campos baixos enquanto a água não descia.
Perdeu o menino duas vezes na multidão e o achou as duas no mesmo lugar, no fim da fileira dos carreteiros, onde a estrada virava para o porto. Ele não estava à toa; era essa a encrenca; estava estudando, do jeito que estudava uma armadilha. O irmão de Rufus tinha descido para Portus Albus na primavera, e veio notícia — notícia dessas sabe nadar contra a correnteza — de que era pago em moeda a cada oitavo dia, e comia pão de trigo, e não devia a homem nenhum. O menino não disse: e eu. Só ficou onde a estrada pudesse vê-lo, dezesseis anos, todo punho, crescendo para fora da túnica em todas as direções ao mesmo tempo. Ela o chamou, e ele veio ao segundo chamado, o que também era a sua idade.
Subiram a colina no clarão do fim da tarde, os cestos leves e o nó na cintura pesado — uma formazinha dura que ela sabia ler pelo pano com o polegar, e leu, duas vezes, na subida. No portão, o velho estava na soleira com o sol baixo em cima dele, esperando o seu encargo.
— Notícia? — disse ele.
— O Imperador ganhou a guerra dele. A de longe. Disseram que queimou de alegria as escritas das dívidas, e não era verdade.
O velho assentiu a isso devagar, como a uma coisa que confirma o mundo nos seus cursos.
— As guerras acabam — disse ele. — Os impostos são a paz.
Naquela noite, acordada o pouco que se permitia, fez a segunda contagem do dia, a permanente. A feira voltara como: sal; a lâmina; o moleiro quieto; moeda no feitio de uma pedrinha no pano. Contra dezembro: a safra da vinha vindo, o azeite atrás dela, e o juro a um por dez, que dormia em Tarbessa e crescia enquanto dormia, a única coisa do vale que não precisava de chuva. Ia fechar. Fechava todo ano, sem sobrar nada; e não sobrar nada era, na vega, o nome de um ano bom.
Quarenta iugera, dizia a escrita da cidade, numa câmara-forte que ela nunca vira. Três gerações, diziam a figueira e o socalco e a pedra. Um por dez, dizia a cera em Tarbessa, que nunca dormia. Segurou as três na cabeça, onde se guardavam as contas verdadeiras, e não apagou lucerna nenhuma, não havendo nenhuma acesa, e dormiu.