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Working draft for review · Vol. I of XII

Capítulo 5 — O triunfo chega a Cardena

A notícia subiu o vale duas vezes naquele verão, uma solta e outra sob selo, e as duas chegadas ensinaram a Marcellus mais sobre o seu distrito do que qualquer uma delas lhe ensinou sobre Roma.

A versão solta veio primeiro. Subiu numa barca de lã, cuja tripulação a apanhara em Hispalis de um barco de vinho, cujo mestre a apanhara de um costeiro saído do estreito; e quando pisou em terra em Portus Albus já largara o que quer que pesasse na partida e embarcara lastro de outra espécie, e subiu a estrada do vale mais depressa do que qualquer correio que o fiscus jamais pagou, porque todo homem que a carregava era pago no contar. Marcellus a teve à segunda hora de uma manhã de feira, por Philon, que a tivera na porta pelo moço do corretor de azeite, e que a entregou naquela voz plana e cuidadosa que reservava para as cópias sem autenticação: o filho do Imperador triunfara em Roma sobre os judeus — o filho sozinho, indo de ouro, o pai olhando de uma cadeira como Saturno velho — e, em honra disso, o Imperador perdoara às províncias os seus atrasados. Mandara tirar do templo de Saturno os rolos das dívidas e queimá-los no Foro, dizia a gente da lã. Perdoara as Espanhas e as Gálias, mas não a África, diziam os carreteiros ao meio-dia. Perdoara tudo o que se devia de antes do incêndio do Capitólio e nada de depois, diziam, ao anoitecer, certos homens que alegavam primos nas repartições do procurator. Nas particularidades o vale era flexível, e as melhorava de hora em hora. No tutano da coisa o vale se fixara de imediato, com a rapidez de um mercado achando preço: alguma coisa devida agora não era devida. Essa parte se acreditou na hora, por ter sido desejada por tanto tempo.

Já na feira seguinte poderia ter assentado num registro o trabalho do boato, se houvesse formulário para isso. O homem do quaestor, mandado às voltas para apertar os pagamentos do verão, voltou de portas que uma feira antes andavam aflitas e agora estavam serenas. Dois homens do leito do meio — soube-o por três lados antes da segunda hora — tinham bebido à saúde do Imperador no foro, com largueza, à custa dos seus credores. Um pagamento prometido à arca da cidade para os Idos foi adiado, com cumprimentos, na pendência da confirmação do que todos diziam; e a carta de adiamento era, como sempre em Cardena, a coisa mais bem-feita de todo o negócio. Os preços se moveram um pouco, como os preços fazem quando uma grande soma de dinheiro muda de ideia a respeito de existir: nada dramático; um afrouxamento; um alívio de punhos. A cidade devia menos, sentia a cidade, do que devia na feira passada, e a cidade chegara a isso tateando, sem documento nenhum.

O próprio quaestor veio ao tabularium no terceiro dia, carregando a sua ansiedade como carregava as chaves, embrulhada e com cerimônia, e perguntou ao comissário o que era verdade.

— Nada veio sob selo — disse Marcellus. — Quando vier, virá para a sua mesa e para a minha ao mesmo tempo.

— O ordo espera que o comissário diga uma palavra no foro. Os homens estão adiando o que devem.

— Se eu desmentir sem nada na mão — disse Marcellus —, não passo de um boato de toga. Vamos esperar o escrito.

Mas achou a coisa em si digna de estudo, e a estudou, aqueles dezoito dias, como estudava tudo: como documento. Era um documento sem autor e com todo homem por copista, e cada cópia era corrigida — aí estava o âmago — não na direção do original, mas na direção da esperança de quem a lia. Não se podia convocá-lo, nem tomar-lhe depoimento, nem pôr nele o próprio selo ou o de quem quer que fosse; corria mais que qualquer correio da estrada e não pagava imposto em banca alguma; e o mercado lhe obedecia como não obedecia a nenhum edito que ele já vira publicado. Em algum lugar de Corduba, supunha, escreventes preparavam a conta verdadeira em passo de escrevente. Enquanto isso, a falsa governava, alegremente, cem milhas de rio.

A verdade veio dezoito dias atrás da mentira, pelo correio de sempre, em duas cartas.

A do procurator foi breve, e a cláusula que importava era a última: O Imperador e Titus Caesar triunfaram juntos sobre a Judeia, num só dia, pai e filho, e a cidade, escrevem, nunca viu coisa igual. Ouvirás dizer que os atrasados das províncias foram perdoados. Não foram. Nada se queimou, nada se remitiu, e a conversa em Roma corre toda ao contrário: o Imperador recupera, retoma e chama a si; disse no Senado, é o que relatam, que soma o mundo há de achar para pôr o Estado de pé — quarenta mil vezes mil vezes mil sestércios; soma que prefiro relatar a cobrar. Quem no teu distrito tiver adiado pagamento com a força da fogueira do Foro pode agora pagar duas vezes: a soma, e o vexame. Cobra as duas.

A segunda carta era de Porcia, e ele a leu duas vezes à lucerna e mais uma de pé junto à janela, e a guardou.

O triunfo eu tive de um homem da casa de meu pai que estava em Roma para vê-lo e ficou de pé o dia inteiro. Os dois entraram juntos, o pai e o filho, e o filho mais moço ia ao lado num cavalo branco. Levavam o tesouro do templo dos judeus: uma mesa de ouro; um candelabro de ouro, feito não como se fazem os nossos, de sete braços; e os livros da lei deles, carregados como cativo. Havia torres armadas sobre carros, pintadas com a guerra, de modo que a própria guerra caminhava por Roma e podia ser lida enquanto passava. No fim do dia fizeram com o general inimigo o que sempre se faz, junto ao cárcere, e o grito, diz ele, ouviu-se do outro lado do rio. Falam de um templo à Paz, a ser erguido com o ouro da guerra. — Teu filho cortou dois dentes e os usou na ama, o que assento entre os ganhos. As oliveiras estão boas. A parcela da encosta não está vendida e não estará enquanto eu tiver o selo. Volta para nós mais alto, mas volta. — P.

Ficou muito tempo com aquela carta depois que a lucerna já pedia despabilar, e se deixou sentir o que não adiantava fingir que não sentia. Dois anos antes o Capitólio queimara. Quatro imperadores num ano tinham comido os exércitos uns dos outros, e com eles toda a renda do mundo, e ele estivera diante do túmulo do pai naquele ano acreditando — precisando acreditar — que o império não eram os imperadores, e tivera bem pouca prova disso além da própria crença. Agora a conta se fechava. A guerra terminada; o tesouro carregado em ordem pelo meio da cidade, pesado, exposto, assentado; o general inimigo saldado na janela de sempre; e um templo a ser construído à Paz com o saldo, como um homem que liquidou uma conta grande e duvidosa poderia erguer um santuário com o que a liquidação deixou. Dissesse-se o que se quisesse dos triunfos — o pai dissera bastante, nada de reverente —, aquele era uma prestação de contas do mundo, feita em público, em ouro, e dizia: a desordem está paga; as colunas fecham; recomeçamos de um total verdadeiro. Ele teve orgulho. Notou o orgulho, examinou-o como examinava tudo, e achou que por uma vez era exatamente o que dizia ser; e desejou — o desejo o surpreendeu pelo peso — que houvesse naquela cidade um só homem a quem pudesse tê-lo dito.

A correção desceu o vale num dia, e foi recebida como se recebem em toda parte as correções de boas notícias: como um pequeno luto. O pagamento adiado chegou à arca do quaestor com uma segunda carta mais bela que a primeira. Não se tornaram a beber as saúdes do leito do meio. Já na feira seguinte, a fogueira do Foro nunca acontecera; ninguém acreditara nela; vários homens haviam dito desde o princípio, diziam agora, que aquilo não podia ser verdade; e o vale, que acreditara nela como um só homem por dezoito dias, concordou calorosamente com todos eles.

O ordo, não tendo remissão que festejar, votou festejar a vitória. Silo levantou-se para propô-lo e foi, por uma vez, breve, porque o sentimento era verdadeiro: um dia de ação de graças, um touro a Júpiter pelo Imperador e seus filhos, a lealdade da cidade tornada visível — e uma inscrição, acrescentou, para ficar junto à porta do templo, de modo que o visível fosse também permanente. Memmius Vetus, do seu banco, concordou com o touro.

— Um touro é devido e um touro há de servir — disse. — Quanto a letras cortadas em pedra, guarde-as, duovir, para a carta de privilégio que o senhor está sempre a ponto de receber.

O riso foi da quantidade segura. O touro passou; a inscrição, não; e Marcellus, convidado a comparecer como hóspede do distrito, viu as duas facções votarem entre si uma piedade do jeito que dois sócios repartem um honorário, e assentou as proporções no seu registro particular naquela noite.

O dia em si amanheceu bonito. O altar ficava diante do velho templo acima do foro, o ordo apareceu de lã sob o sol de julho — levavam os deuses tão a sério quanto o tinham levado a ele, o que ele escolheu achar louvável —, e o touro caiu bem e limpo ao primeiro golpe, com o que todo mundo ficou satisfeito sem que ninguém bem o dissesse. A fumaça subiu reta. Silo, servindo o altar como o cargo lhe pedia, disse a fórmula na sua voz de sala de conselho, os nomes do Imperador passando como barcas, e Marcellus, de pé onde o tinham posto, na frente, no lugar de honra que aprendera a ocupar do jeito que se ocupa uma divisa, olhou não para o altar, mas para a multidão, porque a multidão era o seu trabalho agora, quisessem ou não os dois.

A cidade viera. A cidade estava de pé com decência, de cabeça descoberta, calada nos momentos certos. E a cidade assistia ao triunfo do seu Imperador do jeito que o menino das cabras assistira ao próprio Marcellus na estrada do vale, em abril: por inteiro, com paciência, sem medo e sem esperança de que aquilo lhes dissesse respeito — do jeito que se olha o tempo. Coisa que vem de longe, faz o que faz e passa, deixando o campo melhor ou pior, mas em todo caso o campo. Os homens mais próximos dele eram lavradores num raro dia de cidade; dava para vê-los reparando no céu por cima da fumaça do altar, pondo preço no vento. As crianças olhavam o touro com interesse de açougueiro. Atrás da colunata, as primeiras barracas já abriam, baixinho, por respeito, como homens que cochicham num quarto de doente sobre o preço da lã.

Só Silo, no altar, trazia o que Marcellus estava sentindo, e a versão de Silo tinha uma petição dobrada por dentro; a Roma dele era uma porta, e o seu orgulho tinha endereço. Não havia mais ninguém. De pé no cheiro de sangue e incenso, na cidade que ia desmontando devagar no papel, Marcellus entendeu — não como queixa, apenas como assento, do tipo de achado que um homem anota de passagem e relê anos depois com outros olhos — que, das duas mil pessoas naquele foro, o número daquelas para quem Roma era fé e não tempo estava, contando com generosidade, em duas; e uma das duas estava à venda pelo modo municipal corrente; e a outra era ele mesmo.

A fumaça afinal se dobrou, quando a brisa do rio a encontrou, e desceu o vale — do jeito que o vale dobrava tudo, para a água, para o porto, para o mar que levava tudo embora. À sexta hora o altar estava frio e o mercado, alto. A cidade voltou aos seus preços.

Marcellus voltou ao tabularium, onde as colunas esperavam, e descobriu que aquilo lhe pesava; e não havendo, em todos os formulários de que era senhor, coluna para o que lhe pesava, não o assentou em lugar nenhum. Foi esse o verão em que o império subiu o seu vale, tarde, errado, e depois certo; e foi recebido, inteiro, em dezoito dias de esperança, um touro e uma tarde; e o único homem a quem chegou até o osso foi aquele que tinham mandado cobrar-lhe os atrasados.

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