Capítulo 31 — As contas de Marcellus
O examinador subiu na primeira barca de abril: um homem cinzento, seco e dobrado, das salas do procurator, que examinara no seu tempo — disse-o na primeira hora, não como gabarolice mas como método, expondo a sua história do mesmo jeito que dali a pouco havia de expor os seus pesos — as contas de um distrito alfandegário na Narbonensis, dois erários de cidade na Tarraconensis e a arca de campanha de uma legião no Reno, e achara as diferenças entre elas menores do que a fama dizia. Queria uma mesa com o comprimento virado para a janela, uma lucerna com que viajava, a sala limpa de todo homem menos um para responder a perguntas, e os quatro livros.
Teve o livro fiscal das arrecadações, três anos dele, entrega por entrega, com as confirmações do quaestor anexas. Teve o livro civil — o socorro do ano da seca, o trabalho de muralha, o grão comprado e o grão devido, as subvenções da festa, o rol do socorro da primavera da mina aberto e fechado na forma. Teve o livro dos dinheiros em passagem, que pediu em segundo e leu em primeiro, porque — disse também isto, com toda a simplicidade, sendo homem que não tinha outra conversa e que deixara de lamentá-lo — moeda parada é honesta ou não é, mas é na moeda em movimento que as comissões apodrecem. E o quarto pediu-o com uma fórmula tão gasta que já não lhe restava dente nenhum — onde um oficial de contas guarda dinheiros particulares, é de uso — e Marcellus pôs as suas contas pessoais em cima da mesa antes de a fórmula acabar, debaixo do seu próprio selo, e quebrou ele mesmo o selo à vista do examinador, e pôs a sua casa em prova ao lado da sua comissão: a propriedade de Corduba, a administração de Porcia assentada nos números exatos dela, a parcela do alto e as suas cepas, os estudos do menino, a carruagem paga com uma carta de garça, se o homem se desse ao trabalho de a procurar. O examinador anotou o quebrar do selo sem expressão nenhuma, o que era, veio Marcellus a perceber ao longo dos seis dias, o único registro de aprovação daquele homem: o que ele não comentava, passava.
Por seis dias Marcellus viu o seu próprio ofício vir andando na sua direção por cima da sua própria mesa.
O examinador ouviu os livros uns contra os outros do jeito que se ouvem testemunhas, coluna contra coluna, o civil contra o fiscal, o livro da passagem contra os dois, caçando não erro, mas costura; provou totais na tábua com os seus próprios calculi, que guardava numa bolsa de pele de peixe; leu os rolos como objetos — inclinou as folhas contra a luz da janela, envelheceu as tintas com o olho, andou com a lucerna de viagem ao longo de uma subscrição letra por letra do jeito que um homem caminha uma divisa sobre a qual vai jurar. Marcellus conhecia cada passo. Não inventara nenhum deles e usara-os todos, três anos atrás, de noite, nos rolos belíssimos de um morto, e não lhe ocorrera uma única vez naquele agosto — foi este o achado dos seis dias, e assentou-o no terceiro deles, antes do desfecho, para que o desfecho não o pudesse emendar — como é que a mesa se sente da outra ponta. Não houvera ninguém na outra ponta. Fora esse o horror inteiro, e era esse, via-o agora, o conforto inteiro: caçador em arquivo está sozinho com os mortos e pode acreditar no que a caçada lhe diz. Sentou-se na ponta de responder do seu próprio método, vivo, produziu as suas folhas quando lhas pediram, e achou a cadeira mais instrutiva do que tudo o que o ano lhe ensinara, tirando a basílica de Corduba — com a qual se parecia, notou, como um poço se parece com um rio: o mesmo elemento, mais parado, e um homem no fundo dele.
No quarto dia o examinador achou o erro. Marcellus sabia dele — um assento do segundo ano, dois sestércios contra a comissão no lançar do total de um pagus, apanhado no fecho do ano, corrigido na própria face, a correção rubricada e datada. O examinador pôs a folha debaixo da lucerna à mesma, e ficou calado por cima dela pelo espaço de uma coluna comprida.
— Homem honesto erra contra si mesmo — disse por fim. — É quase uma regra. A dificuldade — virou a folha de face para baixo com dois dedos, do jeito que Celer avançava um calculus — é que os mais espertos da outra espécie sabem a regra. Duas vezes na minha vida vi um livro semeado de perdas pequenas do jeito que um passarinheiro isca um campo. — Olhou para Marcellus sem bondade e sem o contrário dela. — Nada em papel prova um homem, comissário. Papel prova papel. Mas lê-se bem.
E seguiu adiante, e a frase ficou à mesa depois dele, fazendo o seu trabalho no único ouvinte que tinha, que a escreveu naquela noite no registro particular, debaixo da rubrica que guardava para as ferramentas afiadas demais para se deixarem largadas por aí.
A instrução de Celer subira na mesma barca que o examinador, e o seu primeiro rol fechava o assento aberto mais velho dos livros da comissão: a reclamação da viúva de Camalus, arrieiro, morto na estrada ao serviço do Imperador no novembro do segundo ano; compensação fixada em mil e duzentos sestércios, um ano do salário do homem, lançada aos custos da arrecadação. Dezesseis meses a reclamação estivera de pé como obrigação documentada, renovada nas contas de cada estação na mesma linha, porque o fiscus não tinha rubrica debaixo da qual a morte de um civil contratado fosse pagável e precisara de ano e meio para inventar uma; e agora a rubrica existia, criada por instrução, e havia de sobreviver a todos eles, e outras viúvas noutros distritos haviam um dia de ser pagas debaixo do título que o comboio dele comprara. Levou ele mesmo a moeda a Portus Albus, com o escrevente e duas testemunhas, e Chresimus deu-lhes a sala de dentro do posto.
Ela veio com os filhos porque não havia onde os deixar, e o mais pequeno caçou a sombra de uma mula pelas pedras do cais, do lado de fora da porta, o tempo todo, audivelmente, o som entrando no feito como água por baixo de um soalho. Contou a soma ela mesma, em voz alta, à maneira do vale acima, mexendo os lábios, empilhando a prata de cinco em cinco ao longo da borda da mesa, e a sala deixou-a fazê-lo no passo dela, a pena do escrevente à espera; e no fim olhou para as pilhas e disse:
— Está certo.
E a palavra fez todo o trabalho que era capaz de aguentar, e deixou o resto de pé onde estava. Pôs o seu sinal onde o dedo do escrevente mostrou. O escrevente leu-lhe a escrita: que todas as reclamações contra a comissão naquela matéria ficavam por isso satisfeitas. Satisfeitas. O latim das contas tem uma palavra só onde o mundo precisa de duas, e a sala ouviu as duas dentro dela, e ninguém se mexeu por um momento; e depois ela juntou a moeda num pano, e o pano ao peito, e agradeceu ao comissário na voz plana que a vega usava para as misericórdias da cidade, e saiu para o cais e pegou na mão do pequeno; e pela porta Marcellus viu a criança apontar para as mulas e a mãe olhar para onde a criança apontava, e assentou a confirmação naquela noite na forma, e não lhe acrescentou nada, não havendo nada que a forma carregasse.
Os livros do próprio posto foram debaixo da lucerna de viagem naquela mesma tarde e passaram na arrematação nova — vinte e sete mil agora, contra os vinte e quatro de antes, o contrato refeito no segundo inverno provando-se na sua terceira estação —, e Chresimus viu a aritmética da sua vida submeter-se à bolsa de pele de peixe com a serenidade de um homem cujas margens tinham sido remedidas e não abolidas, e mandou o seu bilhete a Cardena dois dias depois: O examinador pesa verdadeiro, senhor. Já fui pesado por piores e paguei mais pelo privilégio. A arrematação passa; fico mais caro e mais limpo, que é o que quer dizer voltar a contratar entre homens que contam. Ferro afunda, conversa flutua; livro limpo, acho eu, não faz nem uma coisa nem outra — fica na sua estante, e deixa um homem dormir.
No sexto dia o examinador subscreveu. Os quatro livros foram fechados e encordoados; o achado foi para uma folha só, na letra cinzenta e exata, e a folha dizia que as contas da comissão em Cardena tinham sido examinadas e achadas em ordem.
Examinadas e achadas em ordem. Marcellus ficou de pé à janela com a cópia enquanto as caixas do examinador desciam para a barca, e deixou a frase acabar de chegar, porque esperava por ela havia seis dias e ela viera, como vêm as coisas esperadas, do avesso. Já a ouvira antes, nesta sala, na voz plana das estantes, no primeiro agosto da sua comissão: Morto, senhor. Em Corduba, no ano seguinte ao do incêndio do Capitólio. Os bens dele foram selados e as contas dele foram examinadas e achadas em ordem. Vibius Crescens passara neste exame. A fórmula idêntica fora subscrita por cima daquele morto asseado por algum servidor cinzento mais antigo das mesmas salas, e não fora corrupção e não fora desleixo; as contas estavam em ordem; a ordem é que era o crime. Papel prova papel. O examinador dissera-o a esta mesa como quem comenta o tempo, e não sabia — e por que haveria de saber; a matéria de Fulvius estava três estantes adiante e não era do seu rol — que estava pronunciando-se sobre a história inteira daquela sala, e sobre a do seu guardador.
Assim ficou Marcellus com a sua absolvição na mão e tirou o inventário do que sentia, sendo o inventário o único instrumento em que ainda confiava para trabalho de dentro; e o que achou não foi orgulho. Foi procurar o orgulho de propósito, do jeito que o examinador fora procurar a costura — devia estar ali; homem que passa três anos construindo exatidão, examinado pela exatidão e confirmado, ganhou o achado, e o orgulho é o salário dos achados ganhos —, e onde ele devia estar de pé achou em vez disso um alívio simples, respirável, enorme: o alívio de um homem cujas provas aguentaram. Orgulho quereria dizer que ele acreditava que o achado o media. Alívio queria dizer que ele sabia o que o achado media: o papel; só o papel, sempre. A distância inteira entre ele e o homem cuja letra aprendera à luz da lucerna — o homem da sua própria espécie, a cabeça asseada que se sentara a esta mesa e escolhera o outro uso para a sua felicidade — ficava em terra que examinador nenhum havia de caminhar: a vega medida a pé, os juramentos tomados junto à pedra, as portas batidas em plena luz; e mais para dentro do que isso, para lá de instrumento algum, a salinha sem testemunhas onde um homem decide, todo dia, sem subscrição, para que serve a sua exatidão. O exame não podia ir ali. Não fora feito para isso. Absolvera Vibius e absolvera-o a ele, com as mesmas palavras, à mesma mesa; as palavras eram verdadeiras das duas vezes; e entre essas duas verdades estava tudo o que importava na vida dele, não assentado, e não assentável.
Na prancha de embarque o examinador parou por cima das suas caixas e ofereceu a única frase não oficial da visita.
— O senhor tem uma letra asseada, comissário.
— O meu antecessor também tinha — disse Marcellus.
O examinador considerou aquilo, decidiu — visivelmente, com economia — que entender era despesa que o rol não carregava, fez que sim com a cabeça e embarcou; e a barca levou o homem cinzento e os quatro livros encordoados rio castanho abaixo, na direção de Corduba, e Marcellus subiu de volta ao tabularium pelos cheiros da primavera, lama e flor e alcatrão, com a folha na mão.
A carta de Celer subiu oito dias atrás do achado, quente como a estação, números em cada parágrafo: o achado anotado com satisfação; a quitação da compensação aprovada e a rubrica confirmada contra necessidade futura; a arrematação de Portus Albus louvada de passagem em crédito do seu conductor, e o conductor lembrado, na mesma cláusula, de que crédito é coisa contra a qual se saca; e depois, fazendo o trabalho verdadeiro da carta no estilo antigo, a frase que assentava a viga do telhado: as exigências sobre o distrito ficariam desde agora acertadas contra a conta da sua capacidade, que esta repartição tem da tua própria mão. Da tua própria mão. O teto do vale e o seu chão estavam ambos de pé em Corduba, agora, nos números dele; e cada ano futuro das obrigações de Cardena — debaixo dele, debaixo do seu sucessor, debaixo de homens ainda por nascer que nunca haviam de caminhar os socalcos de cima — seria computado contra a verdade que ele apurara em três serões frios à tábua de contar. Leu a cláusula duas vezes, pela sua regra, e pôs a carta na arca onde a admoestação de maio e o louvor de outubro estavam arrumados um ao lado do outro, e ali era o lugar dela, sendo a terceira lição da mesma escola.
As contas passaram, escreveu naquela noite. Procurei orgulho e achei alívio, e assentei o alívio, porque é o número honesto e não me há de lisonjear mais tarde. Uma instrução contra os anos que vêm, para quando a fórmula for dita de mim outra vez, em salas onde eu não estarei de pé, por homens que nunca viram este vale: mantenham-se os livros exatos, e guarde-se a diferença nalgum lugar onde os livros não cheguem. Não há terceira instrução. Procurei, três anos, na sala mais bem guardada da Baetica. São duas.