ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII

Capítulo 3 — O que o rio carrega

O cais acordava antes dos pássaros, e Chresimus acordava antes do cais, porque a primeira hora do dia de um rio é a hora em que ele diz o que pretende fazer, e quem arremata um imposto não quer surpresas na sua quadragésima.

Ocupava a banca alfandegária de Portus Albus havia mais procônsules do que tinha dedos, e suas manhãs não variaram em todo esse tempo: de pé no escuro, o braseiro, uma taça do vinho do ano passado cortado com água morna, e então para o alpendre, ler o rio. O rio era um manifesto, para quem tivesse as letras. O que a serra fizera de noite vinha escrito na cor que descia; o que os barqueiros pretendiam fazer vinha escrito em onde haviam atracado e em como carregavam; o que o vale tinha feito, fazia, faria — tudo acabava chegando àquela banca, molhado ou seco, selado ou solto, declarado ou não. Esse era todo o segredo do posto, e não se podia arrematá-lo junto com o imposto: tudo chega ao cais, dado tempo. Bastava estar acordado quando atracasse.

Pela segunda hora o azeite já se movia. Movia-se a estação inteira, este ano como todo ano: os grandes bojos descendo à água em carroças e em canga, cada jarro o peso de um homem quando cheio, embarcando dois por lingada, prancha após prancha, barca após barca, afluente abaixo até o grande rio e grande rio abaixo até o mar e até Roma, que bebia azeite como outras cidades bebiam água. Na banca, cada mestre declarava sua carga; o pesador confirmava o que pedia confirmação; tomava-se a quadragésima, em moeda ou em espécie; punha-se o selo; o rio levava o resto. Chresimus conhecia todo mestre daquelas águas pelas mãos e pelos hábitos. Sabia quais declaravam certo; quais declaravam a menos; e quais declaravam a menos na mesma medida em toda viagem, em toda estação, o que é uma honestidade à sua maneira e muito mais fácil de pôr preço. Ele lhe punha preço. Era esse o trabalho. Roma pedia a quadragésima do que atravessava o cais, e Chresimus pedia a quadragésima da quadragésima de Roma na única moeda que importava, que era saber mais do que ninguém sobre o que de fato atravessava.

A banca lhe custara caro: vinte e quatro mil sestércios ao fiscus pelo ano, ganhasse ou perdesse, cheia ou peste, assinado e selado em Corduba, com um escrevente do procurator lendo as cláusulas em voz alta feito sacerdote. Num ano razoável, a quadragésima do rio dava bem mais que vinte e quatro — mais perto, para quem guardasse seus apontamentos como Chresimus os guardava, de trinta e um — e a diferença não era roubo, do jeito que ele calculava. A diferença era o salário de estar acordado. O fiscus poderia ter posto naquela banca um homem assalariado e ser roubado às cegas por todo casco que boiasse; em vez disso, vendeu a banca a um homem que sabia ler um rio, e o preço da leitura era que o leitor comia primeiro. Suas contas, as duas — a que era para o escrevente do procurator e a que ficava atrás dos próprios olhos — eram ambas belas. A primeira ele mantinha como outros libertos mantêm o larário: sem pó, enguirlandado, sempre pronto para visita. A segunda, mantinha como se mantém o equilíbrio num convés. Nenhuma das duas jamais estivera errada.

E o que o rio carregava, além de azeite? Chumbo, vindo da estrada da mina, em pães baços e pesados marcados com o sinal da mina, empilhados na ponta do cais feito pão para um deus de dentes de ferro. Peles. Lã. Trigo para baixo, vinho para cima, molho de peixe nas duas direções, o que dizia dos homens alguma coisa que Chresimus decidira não investigar. Grão que preferia viajar à luz das estrelas e pagava, pela preferência, uma segunda quadragésima, particular, lançada por Chresimus em pessoa segundo uma tabela de sua própria lavra, na qual o preço subia com o escuro da lua. Cartas. Boatos, que viajavam de graça, por não pesarem, e chegavam, como toda carga grátis, avariados. Crédito — crédito acima de tudo: o crédito descia de Tarbessa como a água descia da serra, por canais velhos, abertos gerações atrás, chegando a todo campo do vale, e banca nenhuma em lugar nenhum tomava quadragésima disso, o que dizia tudo o que era preciso saber sobre quem escrevera as regras das bancas.

E a outra carga do vale, a que nunca atravessava cais algum: a coisa que todo mundo sabia.

Chresimus nunca a dissera em voz alta, e precisara de anos naquele alpendre para montá-la, apontamento a apontamento, e era esta: o vale embarcava mais azeite do que o seu registro criava árvores para dar. E não por pouco. Tinha os totais do posto na cabeça por mais anos do que os que ocupava a banca — seu antecessor fora homem sem ordem nenhuma, mas os apontamentos lhe sobreviveram — e uma vez, em particular, numa noite de inverno com o rio alto demais para tráfego e nada mais a fazer, pusera o azeite do cais contra as oliveiras do lançamento, jarro contra árvore, e vira as duas colunas se recusarem uma à outra, e servira-se de outra taça, e não queimara nada, e não escrevera nada, e fora dormir. Um fato, como uma carga, vale somas diferentes em cais diferentes. Essa era a primeira lei de sua vida; tinha-a em duas línguas, e valia mais no grego. E o corolário dela, que vira outros homens aprenderem ao pé do tribunal de um procônsul: há cargas que afundam o barco que as leva. O azeite do vale vinha de algum lugar; o algum lugar não pagava imposto a ninguém; a diferença entre essas duas frases era dinheiro, muito dinheiro, subindo em silêncio terra adentro para homens cujos nomes Chresimus conhecia e não se permitia pensar em palavras inteiras; e toda alma do rio sabia disso como sabia que a água é molhada, e ninguém dizia, porque dizê-lo era o único ato daquele rio que não dava lucro em cais nenhum.

Então, em abril, o comissário desembarcara.

Chresimus vira a bagagem sair da barca e lhe pusera preço, como punha preço em tudo: mais estojos de escrita do que baixela; uma mesa dobrável; um criado; nenhum cozinheiro. Um comissário que viajava mais pesado em papiro do que em prata. Vira o tipo duas vezes em seus anos de banca. Eram os perigosos. Eram também — para quem tivesse cuidado, e Chresimus tinha cuidado do jeito que o rio tinha água — os seguros, porque acreditavam que o mundo podia ser lido, e quem acredita que o mundo pode ser lido fica muito tempo quieto diante de uma página bonita.

Em maio o comissário desceu de novo a estrada do vale com o seu único criado e pediu para ver o posto.

Foi cortês. Não admirou nada, o que Chresimus anotou com aprovação, tendo passado metade da vida vendo funcionários admirarem de propósito as coisas erradas. Percorreu sem pressa os rolos do imposto do ano corrente, repassou duas perguntas sobre dois assentos — ambos sãos; Chresimus não guardava assentos duvidosos onde visitas pudessem sentar — e então pediu, no tom de quem pergunta pelo tempo, os totais do posto por carga, ano a ano, até onde chegassem os apontamentos. Para a correção do censo, disse. Os registros do comércio seriam ouvidos ao lado dos registros da terra.

Chresimus os deu verdadeiros. Não havia nisso escolha que merecesse o nome: os totais iam para Corduba com as contas da arrematação todo ano, e ninguém conta duas histórias quando uma delas já está selada em Corduba. Mas viu o comissário absorver os números — viu-o fazer, visivelmente, por trás dos olhos, no tempo que uma gaivota leva para inclinar-se no vento, exatamente a soma que Chresimus fizera uma vez numa noite de inverno e depois enterrara — jarros contra árvores, o cais contra o registro — e viu-o não comentar, e enrolar o apontamento, e agradecer, e em vez disso fazer mais uma pergunta, de leve, à porta, do jeito que os perigosos sempre faziam a pergunta verdadeira:

— A sua quadragésima é tomada sobre o jarro declarado. Quem conta as árvores?

— As árvores, graças aos deuses — disse Chresimus —, não são assunto da minha banca.

— Não — concordou o comissário, com afabilidade. — Não são da sua banca.

E subiu a estrada com o criado e os seus apontamentos, e cada um entendeu que o outro tinha entendido tudo, que é a conversa mais econômica que dois homens de negócio podem ter, e a mais barata, até o dia em que se torna a mais cara.

Chresimus voltou ao alpendre e se sentou e revisou para cima o preço do homem, e guardou o novo número onde guardava tais números, na câmara-forte atrás do próprio rosto. Depois fez o que fazia com toda novidade do rio: nada, acordado.

O vale cansaria o homem pela espera. Essa era a aposta permanente, e o vale ficava com o lado melhor dela; o vale já cansara pela espera a seca, a guerra, quatro imperadores num ano e todo comissário que Chresimus já despachara por aquele porto nas duas direções — para cima com seus estojos de escrita e seu método; para baixo, um ou dois anos depois, com o método dobrado e guardado e suas cartas de escusa entrando para a grande literatura das cartas de escusa, enquanto o rio seguia entregando azeite a Roma e crédito aos campos e a quadragésima à banca. Ou — e Chresimus pesava também o outro lado, porque bom apontamento não tem preferidos — o vale não cansaria este pela espera, e então haveria tempo ruim: apreensões, audiências, nomes velhos ditos em salas novas, cargas a que ele já sabia pôr preço descendo baratas na correnteza até cais onde renderiam fortunas. Não apostava contra homens que leem manifestos por prazer. Também não apostava neles. Cobrava-lhes a quadragésima, como a todo mundo, e mantinha a banca varrida, e esperava para ver o que o rio traria.

Traria tudo, no fim. Sempre trouxera. Azeite, chumbo, lã, verdade: o rio carregava os quatro no seu próprio passo, e dos quatro só a verdade não pagava imposto — viajando de graça, como Chresimus havia muito observara, e chegando atrasada, e em mau estado, e sempre, sempre no cais errado.

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