ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII

Capítulo 27 — A colheita do terceiro ano

Aunia contou a colheita antes de a cortarem, andando pela borda do socalco na primeira luz com a foice ao ombro, como a sogra lhe ensinara: tantos passos de trigo em pé para o feixe, tantos feixes para o cento, tantos centos para a conta de modii que os havia de levar ou não levar até as próximas espigas verdes. O ano fora bondoso. A chuva viera quando a chuva deve vir, o canal correra a primavera inteira sem uma única briga nas comportas, o trigo estava cerrado e parelho e as espigas pendiam cheias, e ela contou tudo duas vezes, porque ano bondoso é como estranho bondoso: não prova nada, e a gente olha para as mãos dele.

Duas vezes — e este ano as duas contas não eram uma a conferência da outra. A primeira conta era a antiga, a da família: pão em meses, semente guardada, a paga do moinho, Reburrus enfim pago — a dívida da semente descera ano a ano, um e meio por um, minguando como míngua um inverno —, o juro do homem-febre atendido, e uma margem, pequena, real, a primeira margem real desde antes da seca. A segunda conta era a nova, e ela fazia-a com os mesmos lábios no mesmo andar, e odiava-a em silêncio e fazia-a bem, porque fazê-la mal não a tornaria menos verdadeira: a conta do arrendatário. Se o tribunal dissesse arrendamento, alguma parte destes mesmos feixes havia de descer o vale para um possuidor que o registro viesse a estabelecer — ela não sabia o número; ninguém sabia o número; por isso contava com a pior parte de que já ouvira falar, a dos arrendatários do tarbessano dois vales adiante, e depois com a mais bondosa, e punha a vida da família entre essas duas marcas e vivia ali, no espaço entre uma renda dura e uma renda suportável, que era onde a escrita os alojara havia já quase um ano.

A espera tinha as suas próprias estações. Na primavera fora aguda — a pauta era para a primavera; Reburrus dissera a primavera; tinham plantado a vega inteira sobre a força da primavera — e depois a primavera passara, plantio e tosquia e o rito na cabeceira da água, guardado em maio, menor do que nos outros anos, e não veio intimação nenhuma, e não veio decisão nenhuma; e o que veio em vez disso, em junho, pelo menino dos recados que levava palavras vale acima por um cobre, foi conversa da cidade: o próprio comissário fora posto à questão em Corduba. O que assinara a tábua. Chamado diante do procônsul para responder pela correção — pela correção deles, a correção sobre a qual a causa deles estava de pé — e a vega prendeu a respiração oito dias sem admitir que estivesse prendendo coisa nenhuma, porque se a correção caísse, o fantasma voltava, e o nome do fantasma por cima da terra queria dizer a escrita velha, e a escrita velha tinha por baixo a rede do tarbessano.

Depois Reburrus subiu da feira de julho com o resto da coisa, e ficou de pé na borda do campo com a roupa de feira, e contou-a do jeito que contava as coisas escritas, devagar, com o dedo andando por baixo de linhas que não estavam lá.

— Ele respondeu-lhes com os registros — disse Reburrus. — É a conversa debaixo dos pórticos. Puseram-lhe quatro perguntas e ele encostou tábuas em cada uma, e o procônsul achou as correções boas. Ficam de pé. Acabou — essa parte acabou. A escrita se sustenta.

Parou aí, e Aunia, que o aprendera naquela lareira ao longo de trinta anos, viu a coisa seguinte à espera atrás dos dentes dele e esperou por ela.

— As causas não foram chamadas — disse ele. — A nossa e as outras oito. O ano do tribunal gastou-se — gastaram-no com ele, em julgar o homem —, e o procônsul novo entra no outono e corre os seus tribunais na primavera. As causas são levadas para a pauta do homem novo. Levadas por inteiro, disse-me o escriba; nada se perde; as citações se sustentam; guardam o lugar delas na fila.

Disse as palavras do escriba com a facilidade do escriba, e depois disse, com as suas:

— Outro inverno, Aunia.

— Levadas — disse Boutius, que subira a fileira com palha na barba e estava ali ouvindo, com a foice pendurada na mão. — Como uma dívida.

Foi tudo o que o marido dela disse sobre aquilo, naquele dia e depois; e o não dizer era a têmpera que ela comprara na lareira de setembro e que não parara de pagar desde então. Ele já não falava de ferro. Não falava de todo, na matéria; fechara a causa dentro de um quarto de si mesmo e pusera o silêncio à porta dele como um cachorro; e fizera uma lei para a casa, dada no outono anterior sem levantar a voz, e a lei pegou: não se falará de renda debaixo deste teto até que um tribunal diga a palavra primeiro. E então nenhum deles a dizia, e a palavra ficava por dizer em cada refeição, no lugar em que se passava o sal, e Aunia guardava a conta do arrendatário andando sozinha pelos socalcos.

Só uma vez naquele verão o velho ferro apareceu, e apareceu de modo estranho, e foi por causa da pedra.

O menino quisera quebrá-la. Era julho, a noite de um dia de corte, e estavam amolando na cabeceira do socalco, e a pedra do fantasma estava onde sempre estivera com as letras voltadas para o canal; e o menino — dezoito anos agora, ombros de homem em cima dele, do trabalho de muralha que tomara na cidade naquele inverno, moeda num pote atrás da lareira que todos conheciam e ninguém nomeava — o menino pousou a pedra de amolar e disse que a própria escrita da cidade chamava aquele homem de nulo agora, nada, derramado fora; então para que estava a pedra ali de pé, por cima do socalco de cima deles, dizendo a sua mentira morta ao canal toda manhã; ele havia de arrancá-la e pô-la no riacho antes de escurecer, e o canto deles limpo. E Boutius, que dois setembros antes falara de pedras de canal movidas e do pagus todo de uma boca só, Boutius pôs a mão espalmada em cima da pedra do jeito que se acalma uma mula, e disse que não.

— Deixa-a de pé — disse. — Ela marca o nosso canto. Marcou o nosso canto a tua vida toda, seja de quem for o nome que cortaram nela. E quando o tribunal falar por nós — todos ouviram o quando, e deixaram estar, porque proibir a esperança a um homem é coisa que só se faz em anos mais ricos — quero-a de pé aqui para ouvir. Depois mandamos vir o pedreiro e mandamos cortá-la honesta. Tu não quebras a pedra, menino. Tu a corriges. Quebrar é o que eles esperam de nós, vale acima. Nós somos uma família que corrige.

Ela virou-se na luz baixa e trabalhou a pedra de amolar um tempo, porque havia frases que uma mulher não deixa o marido ver o seu rosto receber; e aquela fora a palavra do comissário saindo da boca de Boutius, assentada ali sem que ele soubesse, do jeito que o ano põe o seu lodo num canal.

O velho foi-se apagando pelo verão do jeito que uma lucerna se apaga, não de uma vez, e com retornos de brilho que eram piores do que o esmorecer.

Vinha aos campos todo dia de corte, porque ninguém achara a coragem ou a crueldade de lhe dizer que não viesse, e sentava-se debaixo da figueira que as próprias mãos tinham plantado no ano em que Boutius nasceu, na sombra redonda, com uma caneca de água e vinagre ao lado, e olhava o trabalho com as mãos nos joelhos. Já não perguntava pela causa. O inverno inteiro perguntara — há notícia, há notícia da cidade — e nalgum ponto da primavera o perguntar parara, e Aunia não saberia dizer o que era mais pesado de passar ao lado, a pergunta ou a falta dela. Agora a cabeça dele soltava os anos do jeito que um animal solta a estaca em chão mole, quieto, andando por perto. Perguntou-lhe uma vez, ao meio-dia, se os avaliadores já tinham vindo — os avaliadores deste ano; estava esperando por eles; tinha a declaração pronta, disse, batendo no peito da túnica onde não havia nada; um homem quer a propriedade jurada enquanto o jurar está barato. Ela trouxe-lhe a caneca e disse que os avaliadores não tinham vindo, o que era verdade, e ele fez que sim, satisfeito, homem com os seus papéis em ordem, e ficou olhando o neto atar feixes em terra que o registro dizia que talvez não fosse de ninguém, e estava contente.

E uma vez, no fim de uma noite comprida e parada, contou as carroças, porque ela lhe pediu. Viera-lhe a ideia olhando-o afligir-se na borda do trabalho, os lábios mexendo, os apontamentos dele andando e enredando-se — o homem que ensinara ao marido dela e à mãe do marido dela todo o ofício de contar daquela lareira, perdendo um número do jeito que se perde um nome, caçando-o, achando em vez dele o número de outro ano. Então pô-lo onde as carroças davam a volta na eira e pediu-lhe que guardasse a conta das cargas, porque a família não confiava em mais ninguém para o fazer, o que era uma mentira construída inteiramente de verdade; e ele guardou. Números pequenos ainda ficavam com ele. Ficou sentado no banquinho pelo âmbar e pelo escuro com uma pedrinha andando entre os dedos por cada carga, e deu-lhe a conta ao anoitecer — nove, e eram nove — e entrou para a ceia direito, homem que cumprira o seu ofício; e Aunia ficou um instante na eira varrida entendendo que agora guardava duas contas de tudo porque o registro vivo da família estava falhando folha a folha à luz do dia, enquanto o registro de cera da cidade, aquele que lhes fizera todo o mal, estava novo e frio e permanente numa estante em Corduba, esperando a sua vez de falar. A memória era o registro, dissera-lhes ele um dia; a memória e o saber dos vizinhos. Ela estava vendo o que valia aquele registro quando os anos chamassem os seus assentos à cobrança.

O menino fez o seu pedido no fim da estação, na eira, quando o grão estava nos jarros e a palha estava empilhada e o trabalho do ano estava feito à volta deles no cheiro de poeira e de noite: que o deixassem descer ao porto para o inverno. Não para sempre — expôs a coisa do jeito que ouvira os homens exporem as coisas na feira, ponto e ponto e ponto, e tinha-os em ordem: o trabalho de muralha estava acabado, a cidade não devia nada até a primavera; no porto umas costas fortes ganhavam salário o inverno inteiro, o irmão de Rufus falaria por ele nos armazéns; e — este era o ponto novo, o que o ano lhe dera, e ele fê-lo sem olhar para nenhum dos dois — se o tribunal dissesse renda, a renda havia de querer moeda, e a terra fazia pão mas o porto fazia moeda, e família com um pé em cada um era família que a escrita não podia derrubar com um golpe só. Ele não estava errado. Era isso que Aunia fazia a todo discurso naquela lareira, pesá-lo, e a pesagem dizia: não está errado. Era o mesmo discurso que ele fizera aos dezessete anos com a tábua nova na prateleira, e não era o mesmo discurso; aquele fora um menino fugindo; este era um homem construindo; e a diferença era um ano de ver os seus mais velhos esperarem, e fizera dele um homem do porto junto ao próprio fogo deles, sem que um pé sequer saísse da vega.

Boutius olhou muito tempo para os jarros. A lei dele se sustentava — a palavra renda fora dita, mas o tribunal não a dissera primeiro, apenas o filho negociando com o formato dela — e ela viu-o decidir não contar aquilo como quebra, o que era em si uma espécie de envelhecer.

— Depois da sementeira — disse por fim. — Vês a semente entrar primeiro. Depois desces até a poda.

E para o chão, não para o menino:

— Salário é salário. Não é ir embora.

Ninguém na eira acreditou na última parte, o menino menos que todos; e ninguém o disse; a casa aprendera, neste ano da escrita, a deixar cada um guardar os assentos que faziam os dias trabalháveis.

Aunia disse a sua parte mais tarde, no escuro do quarto de dormir, para o telhado: um inverno. Segurara-o um inverno — não disse de quê — e deu ao inverno a sua razão para o telhado ouvir, moeda contra a renda-que-talvez-venha, e guardou a razão verdadeira onde guardava a moeda mais pesada, por gastar: que ainda não conseguia contar o que a casa seria com ele fora dela, e ela nunca gastava o que não tinha contado.

A tábua continuou na prateleira ao lado do sal. Estava ali havia dez meses, dobrada nos seus cordões, limpa em volta nos dias de amassar pão como a lucerna e a tesoura; a notificação, os trinta dias, as três vias, tudo aquilo havia muito respondido, assentado, superado — escrita morta por qualquer uso que ela soubesse nomear. Guardou-a assim mesmo. Não se queima o que tem irmãos. E em certas noites, cobrindo o fogo de cinza, com os homens dormindo e o grão nos jarros e a margem contada e o inverno contado e as duas rendas contadas, a dura e a bondosa, ela olhava para a tábua ali na sombra da caixa do sal e segurava o ano inteiro nas duas mãos ao mesmo tempo, do jeito que se segura um jarro cheio descendo a escada, não porque o jarro fosse o ano, mas porque cair é cair:

A colheita estava dentro. Era boa. Ela não podia dizer de quem.

E muito rio abaixo, numa cidade que ela havia de morrer sem ver, uma folha de cera numa estante sabia — ou havia de saber, quando os homens achassem o dia para isso; e o formato de cada vida daquela lareira, o inverno do menino e a lei do homem e as pedrinhas do velho e as duas contas dela própria, pendia dobrado nos cordões dela; e não havia nada a fazer naquele fogo naquela noite senão o que ela fez: cobriu-o bem de cinza, e pôs a água para a manhã, e dormiu com a sua aritmética, toda ela correta, toda ela esperando, como tudo naquele vale, que uma folha virasse.

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