Capítulo 20 — O comboio
A prata saiu de Cardena uma hora antes do amanhecer, porque Senecio queria o mau terreno para trás até o meio-dia, e o mau terreno começava, todos concordavam, nos salgueiros.
Marcellus estava no erário desde a noite anterior, vendo a arrecadação do ano virar frete. Era um processo que costumava achar satisfatório — a moeda contada para dentro das arcas à luz da lucerna, a conta guardada em voz alta por duas vozes uma contra a outra, o seu selo e o do quaestor da cidade apertados lado a lado na cera por cima dos ferrolhos, a obediência inteira do distrito por um ano reduzida a seis caixas ferradas que homem forte nenhum levantava sozinho — e assinara o manifesto com o prazer sóbrio de quem termina uma frase. Duas arrecadações trouxera agora, cada uma mais perto da quota que a anterior. As arcas iriam de mula até Portus Albus, de barca até o grande rio, e assim a Corduba; e com elas, embora não pesasse nada, viajaria a fé do distrito, e a dele.
Senecio chegou com a escolta ao segundo canto do galo, olhou para tudo e não aprovou nada em voz alta.
O prefeito descera trinta homens do Castellum — um terço da sua força efetiva, o que mencionou uma vez, sem ênfase, do jeito que um negociante menciona o que uma coisa lhe custou por atacado — e gastou a meia hora escura antes de a porta abrir rearranjando o que Marcellus julgara já arranjado. A récua era comprida demais; encurtou-a, dois animais emparelhados onde a estrada permitia. As arcas estavam distribuídas errado; pô-las do quinto ao oitavo animal, não à frente — "pegam primeiro as mulas da frente, para parar a estrada" —, e a forragem e a bagagem foram para a dianteira em lugar delas, dispensáveis. Pôs uma vanguarda de oito sob o seu optio, Vettius Fuscus, um homem grisalho de dezenove anos de serviço com uma cara de punho fechado; uma retaguarda de oito sob um duplicarius; o resto estendido pelos flancos da récua, com os seis fundeiros espaçados entre eles, e as bolsas de funda deles, reparou Marcellus, foram pesadas na mão pelo optio, uma a uma, à porta, como bolsas de dinheiro.
— Espera gastar tudo? — perguntou Marcellus, de leve.
— Chumbo acaba como qualquer outra coisa — disse Fuscus. — Ninguém pensa nisso, até acabar.
Quanto ao próprio Marcellus, Senecio designou-lhe o lugar na coluna com a cortesia que teria usado para uma arca: entre a quinta e a sexta mulas, com a carga.
— E, se a coisa der em alguma coisa, comissário, o senhor me faz o favor de lembrar que é carga — disse. — A caixa mais cara desta estrada é a que tem o senhor dentro. Não tenho ordens a lhe dar; sei que o senhor me recitaria o mandato de volta. Portanto chame de pedido.
— O senhor já me fez pedidos antes — disse Marcellus. — Em geral eu paguei.
— Pagou — disse Senecio, e foi essa a soma das amabilidades dos dois; mas era mais do que o prefeito deu a qualquer outra pessoa naquela manhã, e os dois sabiam quanto valia.
Saíram pela porta no último escuro: trinta e oito homens, vinte e dois animais, seis arcas, um comissário. A geada fumegava dos prados do rio quando a luz veio. Novembro despira os choupos ao longo da água e a estrada corria adiante lisa e pálida, e nas duas primeiras horas fez apenas frio, e Marcellus, viajando com a carga como carga, ocupou-se como sempre se ocupava, com o livro-razão que trazia na cabeça: o ano apurado. Uma seca aguentada; o grão do socorro comprado e meio pago; a quota cumprida a menos de uma unha de distância; o registro corrigido, as apelações inscritas, as notificações servidas; os inimigos feitos — podia arrolar esses também, por nome e por peso, como as arcas. Fora, por toda medida que trouxera a este vale, o seu melhor ano e o pior deles, e ainda não achara o erro naquela conta, embora tivesse começado, ultimamente, à noite, a procurá-lo.
À terceira hora Senecio parou a coluna, por razão nenhuma que Marcellus pudesse ver, e ficou olhando estrada abaixo, até onde ela dobrava para fora da várzea.
A terra adiante apertava. À direita, a encosta de socalcos descia em degraus longos e cobertos de mato até a estrada; à esquerda, o chão caía numa ravina de silvas até o córrego; e ao longo do aperto, marcando onde estrada e água tinham corrido um dia no mesmo nível, estavam os salgueiros que davam o nome ao lugar — Ad Salices, chamavam-lhe os arrieiros, nos salgueiros, um nome que não estivera em registro nenhum até aquela primavera, quando Marcellus pusera preço, ele mesmo, nos riscos do corredor e achara aquela meia milha a mais cara do distrito. Toda coisa indesejada que acontecia a carga entre Cardena e o porto acontecia ali ou a menos de uma milha dali. Escrevera-o a Corduba, num relato sobre a segurança das estradas, no mesmo mês, presumivelmente, em que os salteadores concluíam o seu próprio lançamento sobre aquele terreno. Profissionais de duas espécies, pensou, chegando a uma verdade só.
Senecio mandou a vanguarda passar primeiro, bem espaçada. Depois a récua, fechada. A encosta ficava do lado direito da coluna; todo escudo na estrada foi para o ombro direito sem ordem dada — Marcellus viu acontecer, uma pequena decisão de massa, como estorninhos virando, e entendeu que estava vendo a diferença entre homens que tinham exercitado juntos e qualquer outro ajuntamento de pessoas armadas.
A primeira pedra de funda saiu dos socalcos quando as arcas da frente estavam exatamente no nível dos salgueiros.
Marcellus não a viu; ouviu-a — um som de aduela de barril quebrando, que era o som, entendeu depois, de uma pedra do tamanho de um figo batendo na prancha de um escudo em velocidade de matar — e então a encosta, que um momento antes fora um emaranhado vazio de espinho e oliveira abandonada, estava produzindo homens. Não muitos. Foi uma das coisas que lhe ficaram depois, como eram poucos e como bastavam: uns vinte, aparecendo não em linha nem em avalanche, mas de um em um e de dois em dois entre os muros dos socalcos, atirando — pedras, um dardo, outro — para baixo, sobre a estrada presa, enquanto embaixo, à cabeça da coluna, um punhado de outros subia da ravina em cima das mulas da frente exatamente como Fuscus dissera que fariam.
O que Marcellus sabia de combate aprendera dez anos antes, num arnês emprestado de tribuno, em exercícios; o bastante para acompanhar o que agora via, não o bastante para ser da menor utilidade nisso, e o ver, descobriu, tinha uma clareza horrível, como assistir a uma cirurgia. Viu a emboscada como um desenho: a encosta para prender os escudos e a atenção da escolta, o grupo da ravina para soltar os animais da frente e espantar o resto, tudo assentado no pressuposto de que uma escolta, ferroada, se amontoa, e escolta amontoada é escolta parada, e coluna parada em estrada estreita não é coluna, é fila numa tenda de feira. Viu, igualmente como desenho, por que não aconteceu assim. A retaguarda não veio para a frente, embora o barulho lá adiante devesse puxar cada homem dela como puxa uma correnteza; tinham ordens exatamente para aquilo, e ficaram, selando a estrada atrás. Fuscus e a vanguarda, para lá dos salgueiros, viraram e seguraram a outra ponta. E Senecio — Senecio, que se pusera no meio da coluna antes de haver qualquer razão visível para isso — estava gritando, mas a coisa em si Marcellus só montou depois: que uma voz carrega quarenta passos por dentro daquele estrondo, não mais; que o instrumento verdadeiro do prefeito não eram os homens ao alcance da sua voz, que eram poucos, mas a doutrina que carregara dentro de todos eles de antemão, à porta, noutras manhãs, ao longo de dois anos de exercícios de que ninguém lhe agradecera; que o comando, no ponto em que a coisa pega, é coisa gasta com antecedência ou não é gasta de todo — como o chumbo, pensou Marcellus, absurdamente, encolhendo-se ao estalo de outra pedra na madeira: acaba como qualquer outra coisa. Ninguém pensa nisso, até acabar.
Os fundeiros responderam à encosta. Trabalhavam em pares, soltavam com deliberação, faziam as suas pedras contar e contavam as suas pedras — Marcellus, apertado contra o flanco quente de uma mula, com os braços cheios da cabeçada do sexto animal de carga, que tentava com toda a força de uma mula estar noutro lugar, viu um fundeiro perto de si pegar, carregar, girar, soltar, marcar o acerto, pegar de novo, com a economia sem paixão de um homem que paga moeda de que terá pessoalmente de dar conta; e quando a bolsa do homem se achatou, ele disse uma palavra de lado e recebeu metade das pedras que sobravam ao vizinho, contadas de palma a palma, no meio da briga, como a conta guardada em voz alta por cima das arcas do erário.
Durou, pelo sol, menos de meia hora. Não acabou; parou. Os homens da encosta estavam ali para levar mulas, não para pagar por elas em sangue a peso igual, e assim que ficou claro que a coluna não se amontoava nem quebrava, assim que três ou quatro dos seus ficaram no espinho dos socalcos e o preço da carga passou do preço de carga, começaram a ser menos — sinal nenhum que Marcellus tenha visto, apenas um rareamento, a encosta voltando a ser campo vazio com um nervo dentro. Levaram consigo dois animais de bagagem da vanguarda, soltos no primeiro arranco. Deixaram a prata.
Deixaram também — a contagem foi instinto dele, e ele teve vergonha da prontidão dela — o seguinte, assentado naquela noite no seu relato e nos registros do Castellum, e aqui na ordem em que o descobriu:
Uma mula da récua do erário, ferida de dardo, abatida à beira da estrada.
Uma arca — a sexta, a da sua própria mula, aquela cuja cabeçada ele segurara — arrebentou as amarras no corcovear do animal e desceu pelo lado da ravina, derramando moeda nas silvas acima do córrego; recuperada em parte naquela tarde, o restante ao longo de dois dias por homens trabalhando a encosta a meias, a conta ficando afinal quatrocentos sestércios abaixo do manifesto, um erro que ele podia documentar até o denário e que estaria explicando, por escrito, o resto do inverno.
Camalus, arrieiro, de Portus Albus. Homem contratado, não da comissão, não do exército; um homem grande, alegre, comedor de alho, que caminhara aquela estrada, dissera ele naquele amanhecer, quatrocentas vezes. Quando os animais da frente foram investidos, fez o que a vida inteira de um arrieiro lhe ensinara, que era segurar os seus animais; e os homens que subiam da ravina estavam com pressa, e ele estava no caminho deles, e não foram delicados, e não havia nada em exercício nenhum a respeito dele, porque ele não entrava em exercício nenhum. Estava debaixo dos salgueiros quando Marcellus chegou até ele, e os arrieiros o tinham endireitado, e um deles lhe fechara os olhos, e estavam em volta dele com os paus na mão, sem dizer nada, numa raiva que Marcellus reconheceu — dos homens que tinham feito aquilo, da escolta que estivera guardando prata, da estrada, dele.
E Doquirus, soldado, do terceiro ano do seu serviço: lusitano, um dos guardas de flanco do meio da coluna, atingido acima da gola da malha por uma pedra de funda na beirada de nada da briga, quando a encosta já rareava — o golpe de uma pedra pequena atirada por um homem que já ia embora, uma transação sem sentido nenhum dentro. Não morreu logo. Morreu no segundo marco antes de Portus Albus, na carroça, ao anoitecer, com Tanginus — o companheiro de fila, ele mesmo rasgado de dardo ao longo da coxa e costurado à beira da estrada — segurando-lhe a mão e falando com ele na língua de que os dois tinham sido recrutados, que mais ninguém na coluna falava, de modo que a última hora de Doquirus, soldado, passou-se em palavras conhecidas de exatamente um outro homem vivo, e a coluna caminhou ao lado dela, e só podia caminhar.
Entraram em Portus Albus muito depois de escurecer, tochas no cais, as arcas contadas para fora das mulas sob as lucernas de Chresimus — a conta guardada em voz alta, duas vozes, a dele uma delas e mais firme do que tinha direito de esperar — e a prata estava na água pela manhã, e chegou a Corduba intacta, e foi recebida, viria a saber depois, com satisfação: a quota do ano, a fé do distrito, a segunda arrecadação do comissário, entregue por inteiro menos quatrocentos sestércios documentados.
Sentou-se naquela noite no quarto dos fundos do posto alfandegário com o manifesto, o rol da escolta e o seu próprio relato por escrever, e escreveu-o como fora treinado a escrever, em ordem, e a ordem só lhe falhou uma vez. Chegara às baixas. Escrevera a mula. Escrevera a arca, a falta, a recuperação em curso. Escrevera morto, Camalus de Portus Albus, arrieiro, quantia à viúva a determinar, e morto, Doquirus, soldado do destacamento do Castellum ad Metalla, terceiro ano de serviço, e ferido, Tanginus, soldado, e dois outros da escolta, com expectativa de recuperação — e depois ficou com a pena no ar, mais tempo do que soube, porque a linha seguinte do formulário era aquela que preenchera com mais facilidade a vida inteira, e dizia totais.
Havia dois anos que corrigia um registro sobre o princípio — escrevera-o a Porcia quase nestas palavras, e acreditava nele, e continuava a acreditar; era essa a dificuldade inteira — de que um assento tem de responder a uma coisa real num campo real, ou não é verdade, é arma. Muito bem. Ali estava a disciplina de volta pela estrada até ele: as coisas reais respondendo aos seus assentos. Seis arcas. Trinta e oito homens saídos; trinta e seis voltaram, e nem todos esses inteiros. Uma coluna que segurara porque um prefeito que ele não podia comandar passara dois anos carregando ordens dentro dela de antemão. Um arrieiro que não estava nos totais de ninguém, e estaria agora nos dele para sempre, por uma quantia a determinar. E no pé do formulário, esperando, o espaço limpo e riscado onde iam os números do ano — onde tinham de ir; o império andava sobre aquele espaço, e ele escolhera servi-lo, e não era errado, e nada naquela pequena meia milha entupida de salgueiros o tornara errado —, mas ele ficou com a pena no ar por cima dele, ouvindo uma língua que não conhecia falada baixinho numa carroça aos solavancos, e pela primeira vez na vida o espaço pareceu-lhe o que Attenes o velho ouvira numa tábua junto ao próprio fogo um mês e meio antes, embora Marcellus também nunca viesse a saber disso; pareceu-lhe uma coisa que não podia responder à única pergunta que valia a pena fazer-lhe.
Escreveu os totais. Estavam certos. Conferiu-os duas vezes, como lhe tinham ensinado, e estavam certos duas vezes, e selou o relato, e ficou mais um pouco com a lucerna, e então, porque era o homem que era e havia de continuar sendo, pegou uma tábua nova — não para Corduba; sua — e abriu, naquela noite, numa letra que ninguém mais leria por anos, uma segunda conta: nomes, sem somas. Começava com dois.