ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII

Capítulo 2 — O Tabularium

As chaves lhe chegaram naquela mesma noite, separadamente, e a separação em si já merecia um assento.

A primeira foi levada à mesa do duovir enquanto o vinho com mel ainda circulava, pelo próprio quaestor da cidade — homem pesado e cerimonioso, que a trazia embrulhada num pano, como se fosse o instrumento de algum culto de que era sacerdote, e que fez um pequeno discurso no sentido de que o ordo dela abria mão em perfeita confiança, numa voz que convidava a sala inteira a reparar na expressão abria mão. Essa era a primeira chave. Ficava, Marcellus deduziu, com o quaestor do ano, de fim de ano a fim de ano, assim como a segunda ficava com os duoviri em conjunto, de modo que nenhum homem pudesse estar sozinho entre os registros do distrito com a porta fechada às costas: um arranjo antigo e sensato; e ele recebeu a chave com a seriedade que o discurso exigia, e refletiu que um arranjo só é tão antigo e sensato quanto os homens entre os quais se arranja.

A segunda chave veio depois de escurecer, ao alojamento que a cidade lhe arranjara atrás da basílica, na mão do escravo grego da sala dos registros. Trazia, além da chave, uma lucerna e uma tábua de madeira, e ficou à porta de olhos baixos até que Marcellus lhe mandasse dizer o que queria. A tábua era um inventário. Alguém arrolara, em letra miúda, reta e exata, tudo o que continha a sala de que se abria mão: as estantes e o que cada estante guardava, por pagus e por ano; os rolos, por escaninho; as arcas, por suas marcas; a mesa, a tábua de contar, a caixa de calculi, a pedra de selo da repartição, o estojo de estiletes, o pote de tinta de fuligem, as duas lucernas, a tesoura, o cordel, a cera. Marcellus leu o inventário duas vezes, a segunda por prazer.

— Quem te exigiu isto?

— Ninguém, senhor. — O latim do escravo era limpo, com o grego por baixo como uma corrente sob um casco. — As chaves estavam mudando de mão. Pareceu-me próprio que houvesse uma lista.

Dará conta de tudo quanto fizer. Alguém naquela cidadezinha guardava a fé do mandato sem que lho pedissem, e não era o ordo. Marcellus guardou o inventário no estojo de documentos, ao lado do mandato, e perguntou ao escravo o seu nome, e foi informado: Philon. Anotou-o como anotava o nome das boas ferramentas, isto é, com cuidado, e o escreveu naquela noite no alto de uma tábua nova, sob o título o arquivo, entre o número das estantes e o estado das arcas.

Nos três primeiros dias, não leu. Contou.

Aquilo era método, não paciência; ele seria o primeiro a dizer que da segunda tinha pouca. Quem começa lendo começa acreditando, porque a escrita persuade na proporção em que é ordenada, e ele vira já da porta que aquele era um arquivo ordenado. Portanto não o leu; contou-o, item contra o inventário de Philon, estante por estante, do jeito que um comprador desconfiado percorre um campo com o mapa do vendedor na mão e os olhos no chão. As tábuas do censo ficavam em suas estantes por pagus e, dentro de cada pagus, por propriedade, a cera escurecida em âmbar nas folhas mais velhas; acima delas, os rolos — o arquivo dos contratos, vendas e arrendamentos e empréstimos, o que quer que as partes tivessem julgado valer a taxa do registro; nas arcas, sob os ferrolhos duplos, os rolos de atrasados do erário da cidade, com as cartas de escusa dos magistrados atadas ao lado das somas que escusavam, ano após ano, uma literatura que ele começava a conhecer bem. No sótão, sob poeira e sujeira de rato, jaziam os lançamentos antigos, para trás e mais para trás, além da memória do mais velho decurião, até declarações juradas quando o divino Augustus ainda vivia — folhas tão velhas que os estiletes que as escreveram haviam mordido a cera até a madeira, de modo que as palavras sobreviveram à cera que as carregara, como os negócios de um homem sobrevivem ao homem.

Três dias de contagem, e o arquivo estava inteiro. Nada faltava em relação ao inventário; nada havia na sala que o inventário não assumisse. Ele registrou isso, e teve consciência de estar registrando, nos mesmos traços, outra coisa: que a sala era agora o lugar mais bem atestado do distrito, e que tudo o que havia nela passara pelas mãos do homem que escrevera a lista.

No quarto dia, mandou Philon tirar ao acaso uma tábua do censo — escolheu ele mesmo a estante, e a prateleira, e o lugar na prateleira, e reparou que reparavam na sua escolha — e a fez ler em voz alta.

O escravo lia como corre a água, sem pressa e sem parar, naquela voz plana de leitura que não pertence a homem nenhum porque tem de servir a todos: o nome do possuidor e o do pai; a comunidade em cujo território declarava; a parcela, nomeada por seu pagus e limitada pelos vizinhos de um lado e de outro, os vizinhos nomeados; a terra de lavoura, em iugera, semeada e em pousio contadas à parte; as videiras, pela conta delas; as oliveiras, pela conta delas; prado; pasto; bosque; e então as pessoas da propriedade — os escravizados, cada um assentado por nome, origem, idade e ofício, entre o lote de mato e a soma do todo.

Marcellus crescera sob aquela fórmula como sob uma viga de telhado, e nem uma vez erguera os olhos para ela. Agora, numa cidade estranha, com a coisa lida em voz alta para ele na voz plana de um grego, ergueu os olhos, e a achou bela. A fórmula fazia a toda coisa do mundo as mesmas quatro perguntas: como te chamas; onde ficas; quem fica ao teu lado; o que produzes? Perguntava a uma encosta em socalcos; perguntava a uma vala, a uma figueira, a um homem. Recusava-se, por princípio, a achar qualquer coisa pequena demais para que lhe perguntassem o nome. A vida toda ouvira homens reclamarem de que o censo era uma imposição — conhecia as queixas, poderia recitá-las — e pareceu-lhe naquela noite, ouvindo, que tinham tudo exatamente ao contrário: o censo era uma atenção; era o império concordando em reparar, uma por uma, para sempre, em coisas que teria saído mais barato ignorar. Que o vale pudesse experimentar aquela atenção de outro modo, ele sabia como sabia que havia gelo na Britânia — com segurança, e à distância, e sem que nada no seu dia dependesse disso.

As declarações eram a primeira testemunha. Ainda na mesma feira, pôs a segunda ao lado dela: os rolos dos contratos, porque um homem pode mentir ao avaliador uma vez por geração e sustentar a mentira, mas ele vende, ele arrenda, ele toma emprestado em toda estação de todo ano, e cada ato deixa sua pequena esteira de escrita, e as esteiras se cruzam. E a terceira testemunha eram os próprios rolos de atrasados, a confissão da cidade sobre o que não entrara, que ele começava a considerar o documento mais honesto da sala justamente por ser aquele de que todos tinham vergonha. Censo, contratos, atrasados: o que os homens alegavam, o que os homens faziam, o que os homens deixavam de fazer. Pôr os três lado a lado, coluna contra coluna, e ler somente as discordâncias. Era lento. Era o único método que não o obrigava a confiar em ninguém, e ele o expôs a Philon em três frases, e o escravo lho devolveu em duas, com mais exatidão, e pegou a pena; e Marcellus, que ia continuar explicando, fechou a boca e teve o pequeno susto de quem se apoia por distração num pau e descobre que é o pau que sustenta o telhado.

Depois disso, trabalharam. Pelo resto de abril a sala assentou na forma que iria conservar: a mesa limpa a não ser pelas tábuas do dia; a tábua de contar à direita de Philon, onde o dia inteiro os calculi estalavam e se juntavam e eram varridos e se juntavam de novo, um som dentro do qual Marcellus descobriu que trabalhava bem, como certos homens trabalham dentro da chuva. Uma vez, para se certificar de um total, calculou uma coluna de cabeça contra a tábua, e foi batido na soma por boa distância, e anotou o fato sem ressentimento, como se anota o passo de uma boa mula que se teve a sorte de receber. As lucernas queimavam até o fim. A cidade, que esperava — ele sabia, porque a cidade fez questão de que soubesse — uma temporada de jantares, aprendeu em vez disso que o comissário ficava na sala dos registros da segunda hora até escurecer, e mandava buscar tábuas, e mandava buscar outras mais velhas, e a cidade não soube o que pensar daquilo, e pensou, por isso mesmo, tudo.

À mulher escreveu, no fim do mês: Estou instalado. Tenho uma sala, uma mesa, uma tábua de contar, duas lucernas, as chaves de toda a memória do distrito e um grego que é o índice de tudo isso; à sala não falta nada. Manda o manto pesado antes que o outono feche os passos, e não mandes mais nada; a cidade vigia o que eu como como se a minha mesa fosse o lançamento. O trabalho são três testemunhas que precisam ser ouvidas umas contra as outras, dez anos para trás. Vai levar o verão. É o melhor trabalho que já me deram, e eu não escreveria isso a mais ninguém senão a ti.

Releu a carta, achou-a exata e a selou; e não lhe ocorreu, nem então nem por muito tempo depois, que, ao arrolar o equipamento de sua felicidade, tinha assentado um homem entre a tábua de contar e as lucernas. O censo o teria assentado no mesmo lugar. Era a fórmula correta do país que ele servia, e ele o serviu naquela primavera com o coração inteiro e indiviso, sozinho, com boa luz, com tudo contado e tudo em seu lugar.

Tudo estava contado. Tudo estava em seu lugar. Naquelas noites, dormia como quem tem duas chaves.

change chapter