Capítulo 18 — Notificações
Naquela manhã Aunia contou o que o ano ainda lhes devia, o que não levou tempo nenhum, e depois o que eles ainda deviam ao ano, que levou mais.
Fez como sempre fazia, descendo até o canal com o pote d'água, os lábios quase sem se mexer. Dois modii de trigo de semente tomados em março a Reburrus, a devolver um e meio por um — isso era juro de vizinho; Reburrus tinha vergonha de tomá-lo e ela tinha vergonha de devê-lo, e entre aquelas duas vergonhas seria pago exatamente. A paga do moinho ainda de pé desde a debulha. Ao agente do tarbessano — não dizia o nome dele nem dentro da própria cabeça, do jeito que não se dizia o nome da febre — o juro do dinheiro velho da vinha, ao juro que nunca se falava mas era um em dez, com vencimento nas Saturnais, e as Saturnais vindo na direção deles agora como um homem subindo a estrada do vale, sem pressa, certo de ser bem recebido. Contra tudo isso: o trigo nos jarros, menos a semente da sementeira do outono, menos o pão da casa até a colheita seguinte — contava pão em meses, e os meses davam oito, e o inverno era cinco. Portanto: três meses de pão para vender que não podiam ser vendidos, porque o juro do homem-febre os comia. Portanto: as azeitonas. As azeitonas tinham dado apesar da seca — azeitona não liga para como está o ano, dizia o sogro, azeitona já viu de tudo —, e se a prensagem corresse bem ela podia não guardar nada, vender tudo, cobrir o juro e o moinho exatamente, e entrar na primavera devendo só a Reburrus e a semente.
Fechava. Fechava do jeito que fechava todo ano agora: sem sobrar nada e dependendo tudo de nada dar errado.
O homem de Cardena chegou ao meio-dia.
Ela soube o que ele era antes que ele passasse pela abertura do muro, porque andava como os agrimensores tinham andado no outono passado — andar de homem da cidade em chão de campo, cuidadoso dos próprios pés, uma bolsa de tábuas no quadril — e porque a mulher da parcela de baixo mandara o filho correndo à frente dele com o recado: ele anda entregando papéis pela vega toda, tem escolta de soldado na estrada mas chega às portas sozinho. O cachorro latiu até enrouquecer. Aunia ficou de pé no terreiro com as mãos brancas de farinha de cevada e deixou-o dizer o que viera dizer, o que ele fez na voz de quem já dissera aquilo onze vezes desde o nascer do sol e diria mais antes de escurecer: palavras no latim alto dos documentos, das quais ela seguiu talvez uma em três — censo, corrigido, as parcelas assentadas sob, nulo — e depois, em fala comum, como quem desce de uma carroça, disse:
— Tem uma tábua. Deixo com a senhora. Trinta dias. Está escrito nela.
— Escrito — disse ela.
Ele olhou para ela então, o primeiro olhar de verdade que lhe dera, e havia no rosto dele uma coisa quase bondosa e inteiramente inútil.
— Mande ler para a senhora — disse. — Quem souber ler. Isso importa, minha senhora. Não deixe de lado.
Pôs a tábua no muro junto ao portão, uma coisa chata de madeira dobrada nos seus cordões como as oferendas do santuário, e seguiu caminho acima em direção à propriedade seguinte, e o cachorro acompanhou-o ao longo do muro, latindo, até ele passar a figueira, e foi só isso. Foi assim que veio. Depois ela pensou que uma coisa daquele tamanho devia ter vindo de outra maneira — com trombetas, ou soldados, ou fogo num morro — e viera, em vez disso, do jeito que uma mariposa entra num quarto.
Boutius estava no socalco de longe com o menino, limpando a boca do canal antes da chuva de outono. Ela não os chamou mais cedo. Olhou para a tábua no muro várias vezes de vários pontos do terreiro enquanto o pão assava, e não a tocou, e teve vergonha disso também, e tocou-a, e pôs na prateleira ao lado do sal, e fez a refeição.
Reburrus veio depois de escurecer, porque ela pediu ao filho da vizinha que levasse o recado, e porque ele lhes devia a vergonha do juro da semente, e porque era o único homem do pagus que tinha letras. Fora ensinado em menino — o pai pagara um homem em Cardena por dois invernos disso, querendo um filho que não pudesse ser enganado por nada escrito, o que, dizia Reburrus sempre, era como pagar a um homem para ensinar o filho a enxergar lobo: agora ele via lobo em toda parte, e na maioria das vezes tinha razão.
Sentaram-se à lareira: o fogo pequeno, a lucerna acesa também, o que a casa não fazia numa noite comum, e Aunia viu o marido ver a lucerna e entender por ela, antes de qualquer palavra, que a tábua ia lhes custar uma seriedade de azeite de lucerna. Attenes o velho estava no seu banco mais perto do fogo, manta sobre os joelhos embora o outono ainda estivesse ameno. O menino sentou-se no chão encostado na parede, dezessete anos, todo punhos, olhando todo mundo.
Reburrus abriu os cordões, inclinou as folhas para a lucerna e leu.
Leu como sempre lia, devagar, com o dedo debaixo da linha, numa voz que não era a dele — voz de leitura, a voz da cidade falando através dele, e aquilo nunca lhe parecera estranho antes e pareceu-lhe estranho agora: que as palavras pudessem tomar a boca de um vizinho e falar de dentro dela como um estranho.
— Por ordem de Titus Aelius Marcellus — disse a voz da cidade —, comissário do censo e das rendas… visto que os registros deste distrito foram examinados e corrigidos…
E então o latim subiu para as suas salas altas, e Reburrus subiu atrás dele, meio degrau de cada vez, voltando a eles de intervalo em intervalo com o que achara lá em cima.
— Diz que… o registro estava errado. A escrita sobre esta terra, na cidade, estava errada.
— A gente podia ter dito a eles que a escrita estava errada — disse Boutius. — Em qualquer momento nestes trinta anos. Ninguém veio perguntar.
— Diz que a terra… escuta como eles põem: as parcelas assentadas no censo sob o nome de Marcus Fulvius. — Reburrus levantou os olhos. — É o homem da pedra.
O silêncio tomou a sala por um momento. A pedra estava de pé na cabeceira do socalco de cima e estava de pé ali desde antes de o menino nascer: uma pedra de divisa com letras cortadas nela, e as letras, dissera-lhes Reburrus anos atrás, soletravam um nome, M. FVLVIVS, e ninguém no pagus jamais conhecera o homem, e a opinião que tinham — sustentada com frouxidão, do jeito que se sustentam opiniões sobre coisas escritas numa língua, em chão que a gente sempre trabalhou — era que fosse alguma pessoa da cidade dos lançamentos antigos, morta, ou ida embora, um nome que dera à costa na terra deles como madeira de deriva e ficara porque pedra fica. Na primavera os agrimensores tinham ficado em volta daquela pedra meia manhã, e um oficial moço de Corduba perguntara a Reburrus e a dois outros vizinhos, sob juramento, se algum deles alguma vez vira Fulvius, pagara renda a Fulvius, enterrara Fulvius. Não, e não, e não. Os oficiais tinham parecido satisfeitos. Aquilo fora para as tábuas deles. Reburrus viera de lá dizendo: estão descobrindo que a escrita está errada, isto é bom para nós, a verdade é boa para nós.
— Diz que tal homem não se acha em rol algum — leu Reburrus adiante — dos vivos nem dos mortos. E por isso… o assento fica nulo. — Chegou à palavra e parou nela honestamente. — Nulo. Como… derramado fora. A escrita agora não é nada.
— Bom — disse o menino, da parede.
— E a terra de que a escrita falava… — Reburrus foi mais devagar agora, o dedo preso debaixo da linha para que ela não lhe fugisse. — Os que a ocupam… somos nós; ocupam; quer dizer nós… hão de, em trinta dias, mostrar por que direito a detêm. Ou…
E leu-lhes as três vias, uma de cada vez, traduzindo cada uma da voz da cidade para a voz da lareira: podiam inscrever uma apelação, o que queria dizer um escriba, e uma paga, e a causa deles escrita num registro em Cardena para esperar o tribunal do procônsul na primavera; ou podiam aceitar o arrendamento — "quer dizer: renda. Quer dizer que a terra é de outro e a gente paga para trabalhar nela" — ou podiam deixá-la.
— Deixar — disse Boutius, como quem experimenta se a palavra quebra na mão.
— Ir embora — disse Reburrus, baixinho, já sem ler. — Quer dizer ir embora.
O que Aunia lembrou depois da hora seguinte foi que cada um defendeu a via que combinava com os seus anos. Era essa a coisa terrível, pensou mais tarde; a tábua não os dividira uns dos outros, dividira cada um deles na sua própria idade, e pusera as idades a discutir.
O menino queria o porto. Já queria o porto havia um ano, e agora estava ali uma tábua da cidade dizendo que a terra não era nada, a escrita não era nada — "tem trabalho em Portus Albus, tem pagamento, o irmão do Rufus foi e come pão de trigo e não deve a ninguém" —, e não era maldade nele, Aunia sabia; era que tinha dezessete anos e a terra para ele era trabalho primeiro e deles depois, e ainda não enterrara ninguém nela. Deixou-o falar e não disse a coisa que sustinha, que era aritmética: não podiam ir embora. Ir embora não derramava fora a dívida. A dívida não estava escrita na terra, estava escrita em Boutius e nela — o agente do homem-febre tinha os nomes deles, e juro não liga para onde a gente dorme, e uma família na estrada sem colheita por vir não estava livre dos seus credores, era apenas devedora sem safra, o que tinha um nome, e o nome era escravo, ou perto o bastante para que a diferença não aquecesse ninguém. Tinha os números para isso. Ainda não os disse. Não se gasta a moeda mais pesada primeiro.
Boutius queria recusar. Não a apelação: o todo daquilo. A tábua, os trinta dias, as vias, o direito da cidade de ter escrito os quarenta iugera deles debaixo de um fantasma e depois, tendo descoberto a própria mentira, cobrar deles o preço da correção.
— Três gerações — repetia. — Meu avô arrancou o socalco de cima do espinheiro com a barra dele. Onde estava o registro? O registro não estava na barra.
Disse: que viessem os agrimensores e achassem as pedras do canal mudadas de lugar, que achassem sumida a pedra da cabeceira do socalco, que achassem o pagus todo de uma boca só sobre aquilo; e a voz com que dizia era baixa e razoável, e foi assim que Aunia soube que era a sério. Já vira aonde ia aquela estrada. Quando era menina, dois vales adiante, dois irmãos tinham ficado de pé nas suas soleiras com ferro na mão por causa de uma penhora de dívida, e tinham razão, todo mundo dizia; e soldados tinham subido da estrada, poucos, sem raiva, homens cumprindo uma tarefa, e o que sobrou daquela família depois é história que se conta de voz baixa. Contra as três gerações do marido ela pôs, com brandura, uma a uma, como quem assenta pedras num muro: os anos do menino, e os soldados na estrada do vale naquele mesmo dia escoltando o servidor das notificações, e o fato — obrigou-o a olhar para ele — de que o homem que assinara a tábua era o mesmo cujos oficiais tinham estado de pé na pedra deles na primavera escrevendo tal pessoa não existe sobre os juramentos dos vizinhos.
— A escrita esteve contra nós trinta anos — disse ela. — Agora está confusa. Está procurando a quem pertencer. Não é esse o dia de pôr ferro na mão. É o dia de meter os nossos nomes nela.
— Os nossos nomes na escrita deles — disse Boutius. — Foi assim que isto começou.
— Foi — disse ela. — E é assim que vai acabar, de que jeito for que acabe. A única pergunta é se estamos nós na escrita, ou só o fantasma e o tarbessano.
Não planejara dizer a última palavra. Caiu na sala do jeito que cai nomear as coisas. Ninguém lhe perguntou o que o tarbessano tinha a ver com um assento nulo no registro da cidade; ninguém naquela lareira precisava que se traçasse a ligação; quando a terra se soltava neste vale, todo mundo sabia de quem eram as dívidas que faziam rede por baixo dela, esperando o que caísse.
Todo esse tempo Attenes o velho não disse nada.
Ficou sentado mais perto do fogo com a manta nos joelhos e as mãos em cima da manta, e olhou as chamas a noite inteira, e não disse nada, e o silêncio dele não era ausência. Sentou-se à lareira com eles como a pessoa mais velha presente, mais velha que ele. Nascera naquela terra nos últimos anos do deus Augustus, quando o censo era coisa nova que vinha com a paz nova; o pai contara-lhe da terra antes da escrita, quando o que uma família detinha era o que o pagus sabia que ela detinha, e a memória era o registro, e os vizinhos eram o selo. Vira a escrita chegar, e crescer, e tinha — Aunia sabia a história por Boutius — caminhado duas vezes na vida até Cardena para jurar a sua propriedade diante de um avaliador, na crença, geral naqueles tempos, de que a escrita era um telhado: pagava-se o imposto e a escrita por cima da cabeça aparava o pior. Agora era velho — sessenta e sete colheitas pela conta dele, e cada uma das últimas mais cara —, e a escrita falara enfim, e o que ela disse foi que ele fora, nestes trinta anos, um homem lavrando o campo de outro — um homem que não existia lavrando para um homem que não existia —, e a isso não havia nada a dizer, e ele disse-o, hora após hora, com as mãos ainda na manta, e o seu silêncio foi a coisa mais alta que Aunia jamais ouvira naquela sala, onde ouvira nascimentos, e mortes, e as rezas do ano da seca.
Só no fim, quando o fogo estava reduzido ao seu vermelho e Reburrus se levantou para ir, o velho falou uma vez. Não tirou os olhos das brasas.
— Pergunta a ele — disse — de onde é que a gente devolve o imposto de trinta anos. Já que foi para a terra do fantasma.
Ninguém respondeu. Não era pergunta para responder; era pergunta para guardar, e Aunia guardou-a, e havia de guardá-la pelo resto da vida; e muito depois, numa estação que ainda não sabia imaginar, haveria de ouvi-la respondida — erradamente, com bondade, em latim alto, pela voz da cidade saindo da boca de um vizinho —, mas não naquela noite.
Aunia acompanhou Reburrus até o muro. Em cima, as estrelas eram o grande derramamento frio do outono, e vale acima um cachorro respondeu ao cachorro deles, e depois outro, mais longe, a vega passando adiante o seu único e pobre recado pelo escuro: estranhos hoje, tábuas, esperem.
— A apelação — disse ela. — O que é que o escriba leva, em Cardena, para inscrever uma causa?
Reburrus disse-lhe. Era mais que a paga do moinho e menos que a dívida da semente. Era, exatamente, a diferença entre vender todo o azeite e guardar o jarro da casa — a única coisa da conta dela que não era devida nem a haver, a margem que ela guardava como a sogra a guardara, azeite das árvores deles no jarro deles, porque casa com azeite próprio é casa.
— Pela feira — disse ela, querendo dizer as nundinae do outono. — Diz a ele que nos espere.
Entrou. A tábua estava na prateleira ao lado do sal, dobrada nos seus cordões, e ela olhou para ela um longo momento na quase escuridão: a coisa em si, madeira e cera, não maior que a tábua do pão; dava para queimá-la na lareira no tempo de dizer uma reza, e lá em cima em Cardena, nas estantes, ela tinha irmãs sem conta, e a queima não significaria nada de nada. Era isso que a cidade tinha e a vega não tinha, entendeu ela, com clareza, do jeito que entendia pesos: não os soldados, não os muros. Cópias.
Cobriu o fogo de cinza. No quarto de dormir Boutius estava deitado de olhos abertos; o menino já respirava devagar contra a parede de lá; através da parede ela ouvia o velho, também sem dormir, quieto como homem estendido.
Quarenta iugera, contou. Dois modii devidos a um amigo. Três vias numa tábua. Trinta dias. Um jarro de azeite, e vai para a escrita. Depois contou o que não cabia em tábua nenhuma — o socalco que o avô do marido arrancou do espinheiro, a figueira que o sogro plantou no ano em que Boutius nasceu, o canto norte onde duas crianças dela que não tinham durado um inverno estavam deitadas, sem escrita, em chão que o registro agora dizia ter pertencido desde sempre a ninguém — e pôs as duas contas lado a lado, a dela e a deles, do jeito que o comissário lá em cima em Cardena punha as suas colunas lado a lado, e fez, no escuro, de olhos secos, a mesma descoberta que ele fizera à luz da lucerna um ano antes, embora nenhum dos dois viesse jamais a saber que a partilhavam:
A aritmética não fechava.