Capítulo 15 — O preço do pão
A colheita veio cedo, porque não havia muito o que esperar.
Cavalgou até lá para ver, nos últimos dias de junho, e a vega ao menos ainda parecia um país: o trigo de rega dera meia colheita, ralo na espiga mas honesto, e os canais estavam sendo disputados com polidez, comporta por comporta, nas horas pequenas, que era o jeito de a vega dizer que a briga tinha começado. Foi a terra seca que contou o ano sem rodeios. Nas parcelas do morro o trigo estava na altura do joelho e branco cedo demais, campos inteiros dele que não valiam a foice, e os homens ceifavam assim mesmo — para palha, para os bichos, porque um homem ceifa o que semeou — e as eiras, na estação em que deviam roncar o dia inteiro como açudes, faziam um som seco, ocasional, de quem pede desculpa, uma eira aqui e uma eira ali, logo terminadas. Sabia desde fevereiro. Ouvir era outra coisa.
Os preços guardavam o livro-razão disso melhor do que ele. O trigo estivera a três sestércios o modius na feira um ano antes, a quatro em março, a cinco pelos Idos de maio. Em junho, com a quebra visível das muralhas, foi a oito; na primeira feira de julho era dito a doze, com a pequena pausa na frente do número que ele aprendera a ouvir nesta cidade como se ouve um sintoma; na segunda feira estava em quinze e a pausa tinha sumido, porque preço de que todo mundo já deixou de ter vergonha é preço que chegou. O dia de um jornaleiro, em ano bom, rendia três sestércios, e não havia trabalho: a colheita que emprega um vale não acontecera. Fez essa divisão de cabeça uma vez, na borda do foro, olhando um homem com quatro filhos ser posto pelo preço para fora do grão diante do qual estava de pé, e assentou o resultado à noite sob um título de que nunca precisara na vida: o que um dia compra. Um dia de um homem, contra a quinta parte de um modius. A aritmética da fome era a mais simples do distrito e a única sobre a qual ninguém regateava.
O primeiro alvoroço veio no porto, não na cidade: uma barca de grão velho, comprada sem alarde por dois negociantes do meio para descer a preços melhores, e a gente do cais sabia o que havia nos sacos e não deixou carregar. Sem ferro, sem fogo — empurra-empurra, um homem de negociante no rio, sacos rasgados e sumidos na multidão como água na areia, os homens de Chresimus ficando de fora daquilo com a neutralidade profissional de quem é pago para guardar um imposto e não um princípio. Na feira seguinte foi a vez da cidade, um encontrão na tenda de um padeiro pelos últimos pães baratos, o escravo da cidade descendo o cajado nas costas de alguém, uma tenda no chão, farinha na sarjeta sendo raspada por crianças. Coisas pequenas. Escreveu-as pequenas a Corduba e leu-as grandes, porque passara um ano e mais aprendendo a gramática deste distrito e sabia o que estava vendo: ordem em Cardena não eram as muralhas nem a ronda; era a convicção não dita, renovada todo dia nos fornos, de que amanhã dava para atravessar; e essa convicção estava sendo posta a preço novo de oito em oito dias no foro, junto com o trigo.
O que se seguiu ele fez na forma devida, no único verbo forte do seu mandato: escreveu. A Celer, o estado do distrito, os preços, as reservas, a quebra da terra seca, o humor do porto — lavrado a limpo, com números, no dialeto que o fiscus lia. A resposta de Celer subiu no nono dia, e concedia o que se podia conceder em Corduba: autoridade para comprar contra a necessidade do distrito, a preço fixado, das reservas que o próprio censo de jarros da comissão contara na primavera — os excedentes declarados das casas grandes e dos negociantes, a serem vendidos à cidade a oito sestércios o modius, quisessem ou não, preço do fiscus por razão do fiscus; e uma linha do próprio punho do procurator, seca como o verão: Contaste os jarros deles em abril. Eles hão de lembrar, agora, por que contaste, e tu também. Compra depressa. E assim as declarações que os homens lhe tinham prestado por confiança, ou por medo vestido de confiança, uma folha por casa, viraram, sem mudança de uma palavra sequer, o rol das portas a que bater; e o comissário que jurara pela própria aritmética que o registro tinha de responder ao mundo viu o registro fazer exatamente isso, a oito sestércios o modius, à porta de outros homens, com os edis levando as folhas; e ele anotou, no livro particular, que registro verdadeiro em ano ruim é rede tão certamente quanto um falso — de malha mais fina, lançada mais parelha, apanhando o justo e o injusto com uma equidade que ninguém pedira. O grão entrou. Houve discursos de protesto na cúria, duas recusas que dobraram quando o mandado foi lido em voz alta, uma inimizade feita numa manhã que haveria de durar mais que a vida de todas as partes, julgava ele. O celeiro público encheu-se até talvez um terço do inverno.
Pôs a cidade a trabalhar pelo resto do seu pão, porque socorro que é só pão faz de um distrito uma turba, e trabalho era a única coisa que o ano deixara barata. A cabeceira do canal da própria vega da cidade pedia reconstrução; a estrada para Portus pedia que se consertassem as valas abertas por três invernos de descuido antes da estação dos comboios; salário em grão, uma medida por dia, as listas guardadas pelos pagi e conferidas pela sua própria gente — e por um mês o distrito ofereceu o espetáculo estranho, que ele não apontou a ninguém, da seca pagando os reparos para os quais os anos bons nunca tinham achado dinheiro. Silo carregou o ordo naquilo com generosidade; isto, enfim, era obra pública, coisa com o feitio do nome dele dentro. Vetus compareceu às sessões e não disse, o mês inteiro, absolutamente nada, o que vindo de Vetus era uma cessão de território mais eloquente do que discurso.
E não foi bastante, e ele sabia desde maio que não seria bastante, e sabia também todo homem do vale que soubesse contar, o que neste vale era todo homem.
As somas não eram obscuras. O celeiro, as compras forçadas, as listas de trabalho, a meia colheita da vega — tudo junto levava Cardena até a beira do outono e não além, e o outono não trazia segunda colheita de trigo; a aritmética do ano acabava no escuro em algum ponto aquém da estação da azeitona, e o que estava entre o distrito e aquele escuro era frete: grão de fora do vale, comprado caro e carregado caro, num verão em que todo distrito do rio estava comprando. Os negociantes de Corduba cotavam fome e frete juntos. O fiscus não alimentava cidades públicas cujos lançamentos acabara de levantar; as cartas de Celer eram solidárias do jeito que um livro-razão é solidário. Havia, a um dia de carreto, exatamente um telhado com o inverno debaixo. Ele andara por baixo dele em novembro, no passo de um convidado, passando por grão bastante sob uma cobertura só para alimentar Cardena até a primavera; e o homem que era dono daquilo lhe dissera isso na hora, com brandura, em conversa, do jeito que um homem menciona o tempo que por acaso guarda num armazém.
Marcellus fez a coisa à luz do dia, em nome da cidade, pela forma, porque não havia outro jeito de fazer e porque qualquer outro jeito seria sussurrado de todo modo. Pôs a matéria ao ordo em sessão formal: as somas lidas em voz alta, a falta nomeada, as fontes listadas, e a lista tinha um item de comprimento. Viu a sala ouvir o nome. E foi Silo — tinha de ser Silo, e Marcellus deixou que fosse Silo, e desprezou a parte de si que já apurara aquele deixar-ser como jogada — quem se levantou e propôs aquilo em volta do que todos estavam sentados em silêncio: que a cidade tratasse com Tarbessa por grão, como vizinhos, como tratara no ano caro sob Nero, de honrada memória; e o ordo votou com o alívio de homens enfim autorizados a dizer o óbvio, e a carta foi por cima da cumeeira naquela tarde na melhor letra da cidade.
A resposta voltou em dois dias, e era tudo o que Marcellus sabia que seria, e era esse o problema dela. Macer venderia — à cidade, publicamente, a pedido da cidade: grão a dez sestércios o modius, quando o foro estava em quinze; entregue em Portus por risco das barcas dele; metade do preço na entrega, o saldo nas Saturnais, juro nenhum nomeado, entre vizinhos; e a quantidade não a que o ordo suplicara, mas a que o inverno de fato pediria, número que concordava com a apuração particular do próprio Marcellus a menos de umas poucas centenas de modii, de modo que, lendo-o, ele teve a sensação, breve e completa, de dois agrimensores se encontrando na mesma linha vindos de pontas opostas. Condição nenhuma. Menção nenhuma a registros, ou correções, ou comissários. A carta lamentava o ano, elogiava a prudência da cidade e lembrava que Tarbessa e Cardena eram um vale só, dissessem o que dissessem os mapas do conventus; e era, como composição, perfeita, e Marcellus pôs-a, na cabeça, na prateleira onde estavam os melhores documentos do distrito, ao lado das cartas de escusa dos magistrados e do seu próprio mandato: instrumentos em que toda frase era verdadeira e cujo total era poder.
As primeiras barcas subiram a Portus Albus nos últimos dias de julho, carregadas fundo, pontuais, os sacos limpos e de peso cheio — Chresimus pesou uma dúzia ao acaso sob o olho de Marcellus e achou-os, relatou, com o espanto plano de homem de frete, acima e não abaixo — e o grão saiu da água para dentro de uma multidão a quem tinham dito o preço e que não acreditava de todo até os edis o escreverem no quadro caiado à porta do celeiro. Dez, contra os quinze do foro. Cardena comeu naquele outono — comeria naquele inverno — porque Tarbessa vendeu; e todo mundo sabia, e era para todo mundo saber, e o saber era o preço acima dos dez, assentado em lugar nenhum e pago por todos.
Macer subiu com o terceiro comboio, uma vez, brevemente, e Marcellus entendeu aquilo também: a transação queria uma aparição pública para ficar completa. Veio simples como sempre, andou o cais, conferiu uma amarra com a própria mão como qualquer dono, e ficou um momento de cabeça descoberta diante do celeiro enquanto a deputação do ordo lhe agradecia — Silo à frente dela, discursando gratidão, o ânimo da multidão por trás real como tempo. Macer deixou aquilo correr até o fim, e depois disse, na voz que alcançava exatamente a distância que escolhia, que vizinhos eram vizinhos; que velho gosta de ser útil; e que o agradecimento da cidade cabia por direito a outro lugar:
— O comissário de vocês contou os jarros de vocês na primavera, senhores, e escreveu as cartas, e sabia ao modius o que o inverno ia pedir. Nós só tínhamos o grão. Ele tinha a soma. Entre nós dois, vocês estão alimentados.
E virou o calor da multidão na direção de Marcellus com uma das mãos abertas, com graça, em público, irrevogavelmente, jungindo os dois na memória do distrito: os dois homens que juntos tinham trazido a cidade através; o homem da correção e o homem da dívida, sócios no pão. Foi a coisa mais danosa que alguém dissera a respeito de Marcellus desde que ele subira o vale, e era elogio, e era até verdade, e não havia ali nada a que responder, tanto quanto não houvera nada a que responder na sala da cera, nem na observação sobre fantasmas, nem no estojo de estiletes; e Marcellus fez a pequena mesura que o momento pedia, e a multidão ficou contente com os dois; e em algum lugar do outro lado da cumeeira, numa câmara-forte seca, a conta verdadeira do ano de tudo aquilo estava aberta, e ele conseguia lê-la daqui: à cidade de Cardena, na sua necessidade, tanto, a bondade; e bondade a um por dez, juro sobre juro, nestes quarenta anos, era o vale.
Naquela noite escreveu a Porcia, a carta que devia ao mês. Escreveu a seca, que ela sabia, e a colheita, que ela adivinhara; as compras forçadas e a inimizade dos dois que recusaram, em poucas linhas, deixando aquilo seco e um pouco cômico porque tinha sido, entre outras coisas, um pouco cômico; a cabeceira do canal reconstruída, a estrada consertada, a visão estranha do ano ruim consertando o que os anos bons quebravam. Escreveu que a cidade comeria o inverno inteiro; que a coisa fora arranjada; que se conseguira grão a preço justo do outro lado da cumeeira. A frase ficou um momento parada debaixo da mão dele enquanto a lucerna tremia. Do outro lado da cumeeira. Cada palavra dela verdadeira. Não acrescentou o nome, e não disse a si mesmo, desta vez, que o acrescentaria numa carta posterior; e o debate inteiro dentro dele, que nas Saturnais enchera uma noite e lhe custara um rascunho raspado e uma noite de sono, acabou entre uma molhada da pena e a seguinte: o ofício já nem o consultava; escrevia simplesmente a versão que fechava. Terminou bem a carta — o menino, as meias enfim furadas, uma linha sobre o silêncio de Vetus de que ela haveria de gostar — selou-a, deixou-a para o correio; e ficou depois sentado com o registro particular aberto no ano, e assentou o único achado do dia no estilo plano que o livro lhe ensinara:
A cidade está alimentada. O preço foi dez o modius e o resto de mim. Primeira prestação paga no cais, em público, em agradecimento. O saldo vence, como tudo neste vale, nas Saturnais.