Capítulo 14 — O santuário na cabeceira da água
Na manhã em que o pagus subiu à água, Aunia acordou no escuro por hábito e começou a contar, por hábito, e parou.
Ficou um momento deitada escutando a casa — a respiração do velho através da parede, lenta e seca, como vassoura em chão; o menino dormindo pesado; Boutius já saído de junto dela, o que nesta única manhã do ano não significava nada pior do que o canal — e deixou os números irem. Esperavam. A dívida da semente esperava, e a paga do moinho, e o dinheiro da vinha crescendo caladinho o seu um por dez no escuro de uma câmara-forte do outro lado da cumeeira, do jeito que o fermento cresce numa tigela tampada; dívidas se guardavam lindamente; eram a coisa mais bem guardada do vale. Hoje o pagus subia à cabeceira da água, e o que quer que o ano pretendesse fazer com eles teria de começar amanhã.
Levantou-se e foi assar.
Os bolos para a água eram os chatos, cevada e trigo misturados, uma marca de polegar de azeite no meio de cada um, feitos na pedra do jeito que a sogra lhe mostrara na primeira primavera do seu casamento — nada de mel; a água gostava do seu pão simples, dissera a velha, sendo ela própria a doçura — e enquanto assavam ela encheu o jarrinho do jarro da casa, o azeite deles das árvores deles, que subia o monte com eles uma vez por ano nos anos bons e nos maus igualmente, porque era a única coisa naquela mesa sem o nome de outra pessoa dentro. O jarro não respondia a ninguém. Era esse o trabalho dele, mais do que lucernas.
Boutius e o menino entraram molhados até os joelhos ao nascer do sol, e comeram de pé, e estavam contentes consigo mesmos exatamente do mesmo jeito, o que sempre a fazia olhar de um para o outro até o menino perceber e ficar digno. Estavam lá embaixo desde a primeira luz fazendo o que a casa da cabeceira fazia antes do dia da água: caminhar o canal da comporta até a segunda curva com ancinho e barra, assentar as pedras soltas, limpar o lodo do inverno da garganta dele — o comprimento deles e dois comprimentos além, passada a sua própria comporta, até onde começava o cuidado da propriedade seguinte. Escrita nenhuma em lugar nenhum mandava. A sogra de Aunia dizia-o do jeito que dizia toda a sua lei: a água conhece a casa que lhe guarda o leito. Se a cidade alguma vez tivesse perguntado — a cidade nunca perguntara — o pagus teria dito apenas que os Attenes ficavam na cabeceira, e a cabeceira guarda pela cauda, e era isso que ficar na cabeceira era; era como perguntar por que o telhado guarda a chuva longe da porta.
O velho iria a pé. Tinham o burro do vizinho para ele, escovado e trazido até o portão do terreiro com uma pele de carneiro em cima, e ele olhou para o burro do jeito que olhava para os preços na cidade, e pegou o bastão. Tinha posto a túnica boa, e Aunia escovara-lhe a capa embora o dia fosse ficar quente, e ele ficou de pé no terreiro, no sol cedo, esperando o pagus subir o caminho, empertigado, as duas mãos no bastão, do jeito que ficava na soleira todos os dias de trabalho do ano; mas vestido, e esperando, e — ela viu e não disse nada, do jeito que não se comenta uma coisa arisca com medo de que ela vá embora — feliz.
O pagus subiu com o sol, casa por casa entrando no caminho, e na esquina da comporta, onde as divisas de todo mundo sempre tinham concordado, já eram o pagus inteiro, crianças correndo à frente de tudo aquilo como respingo à frente de carro que atravessa água. O caminho da cabeceira subia passando os socalcos de cima, passando o campo alto deles, onde a pedra de divisa ficava meio dentro da linha do arado — a pedra recebeu dela o seu olhar, como recebia toda vez; estava ali se aquecendo ao sol, velha e letrada e mentida a respeito, não mais de Fulvius do que era a figueira, e nesta primavera, enfim, homens da cidade tinham parado diante dela na forma devida e escrito sob juramento que ninguém vivo jamais a alimentara — e depois o caminho deixava os campos e subia junto com a água, estreito, o canal conversando à mão esquerda, até o lugar onde o vale se apertava e a rocha saía cinzenta da encosta com a linha verde por baixo, e a nascente vinha da boca da montanha para a sua bacia gasta, e vinha, dizia o velho, desde antes de o rio ter nome.
A água estava pequena este ano. Todo mundo viu e ninguém disse primeiro; e então a velha da aldeia do santuário, que guardava o lugar — varria a borda da bacia, renovava a lã no espinheiro, lembrava as palavras — disse-o pelo pagus do jeito que precisava ser dito: que já a vira menor. Duas vezes nos seus anos, menor do que esta, e nas duas vezes a nascente aguentara quando o rio lá embaixo virou uma corrente de poças entre as quais se podia andar, porque a nascente vinha de debaixo do tempo, da guarda da própria montanha, onde os anos não chegam. Um polegar de largura de água, disse, erguendo o polegar, todo torto e nó, é uma família viva. O pagus olhou para o polegar e para a água, muito mais larga que um polegar, e ficou consolado; e Aunia ficou consolada também, e notou, em algum lugar por baixo do consolo, onde a sua contagem morava mesmo nos dias em que a deixava dormir, que a velha não dissera que a nascente nunca minguava. Dissera que nunca faltava. As palavras do pagus eram sempre exatas, e a exatidão tinha uma forma, como a de um jarro: continha exatamente tanto, e queria que se enxergasse a borda.
Ao lado da bacia estava o altar. Era uma pedra quadrada pequena, mais velha que qualquer casa de pé no pagus, o topo escavado por mãos e por tempo, e na face dela havia letras — letras romanas, cortadas fundo um dia e agora gastas macias, líquen nos sulcos como na pedra do socalco deles — e ninguém no pagus sabia lê-las senão Reburrus, e Reburrus lera-as havia muito e dera ao pagus a leitura, e a leitura passara para a guarda do pagus como uma divisa: algum homem do tempo antigo, de nome romano, pedira alguma coisa à água — a vida do filho, dizia o pagus, embora Reburrus admitisse que a pedra não dizia — e a água dera, e o homem pagara o que prometera, de bom grado, como era merecido. Era isso que as letras diziam, jurava Reburrus: que ele pagou de bom grado, e que a água tinha merecido. Parecia a Aunia, todos os anos, muita coisa para se saber de um homem no mais inteiramente ido — melhor conhecimento do que os rolos da cidade guardavam dos vivos — e todos os anos ela pensava o mesmo pensamento na mesma volta do caminho, chegando com os bolos: que a pedra da água dizia uma coisa verdadeira sobre um homem real, e a pedra do campo deles dizia uma coisa falsa sobre homem nenhum, e das duas escritas a cidade e todas as suas estantes tinham escolhido, nestes trinta anos, acreditar na do campo.
O rito era o rito. Não tinha nome que ela alguma vez tivesse ouvido; não precisava, tanto quanto pão não precisa; era o que o pagus fazia na cabeceira da água na estação em que o ano mostra a mão. A velha disse as palavras, e as palavras eram como sempre tinham sido, a língua antiga e o latim dobrados um no outro como duas mãos, os nomes da água numa e o pedido na outra, e ninguém comentou porque não havia nada a comentar: tudo o que era velho no vale falava pelas suas duas bocas ao mesmo tempo. Cada casa deu o que dava. Bolos no altar, e os pássaros haveriam de comê-los, e era assim que devia ser. Vinho derramado no topo escavado da pedra, para dentro do escuro velho que havia ali. Lã enrolada nova no espinho. As coisinhas brilhantes para dentro da bacia, para as crianças darem — um alfinete, uma conta, um osso de nó lustrado de tanto esfregar — e o menino, que aos dezessete anos já estava velho demais para aquilo e fez assim mesmo, rápido, quando achou que ninguém olhava, girou lá dentro uma moedinha de cobre, dinheiro de cidade, ganho a duras penas; e Aunia viu a moeda descer pela água limpa e assentar a sua luzinha entre os anos de outras luzinhas no fundo da bacia, alfinetes e contas e as moedas de imperadores de que ninguém vivo se lembrava, o tesouro inteiro do pagus, afundado na única câmara-forte que nunca fora roubada; e ela não lhe perguntou o que tinha pedido. Sabia lê-lo sem letras. Ele pedira à água o porto.
Derramou o azeite deles por último, um fio fino de ouro do jarrinho sobre a pedra, e pediu o que pedia todo ano, no espaço que as palavras deixavam aberto para o pedido: que a água aguentasse até a colheita. Mais nada. Não se espalha o pedido, dissera a sogra; a água não era a cidade, para ser contornada com três petições vestidas de uma; pedia-se-lhe a única coisa que ela podia fazer, e guardavam-se as pedras do leito dela, e entre a sua casa e a água crescia, com os anos, um entendimento. Era a dívida mais limpa de toda a guarda dela. Era a única que nunca uma vez sequer fora cobrada.
Depois o pagus comeu a sua própria festa, na grama plana abaixo da cabeceira, fazendo do cesto de cada casa uma mesa só, e o dia abriu a mão.
Não guardou ordem nenhuma daquilo depois, só pedaços, do jeito que se guarda um dia bom — ele não se assenta, ele brilha. O jogo de arremesso dos homens, pedra até a marca, e Boutius em mangas de camisa vencendo o ferreiro da aldeia do santuário por um palmo e sendo carregado pela gritaria por um momento como fora carregado quando ela o conheceu, rindo com a cara inteira: um homem que ela via talvez duas vezes por ano agora, e com quem tinha casado por inteiro. As corridas das crianças, e o menino correndo a prova dos moços, segundo, batido por um primo de pernas mais compridas, e contente assim mesmo, porque a moça do moinho o vira correr. O velho à sombra da rocha com os outros velhos, um jarro entre eles, resolvendo a história do pagus — qual cheia, avô de quem, o ano em que o lobo veio — com a finalidade sem pressa de homens cujo tribunal já não se reunia mas cuja lei ainda se citava; e uma vez, quando ela lhe levou a porção, ele estava contando aos moços a história da água: que o pai do pai dele vira o rio lá embaixo encolher até virar uma corrente de poças verdes, os peixes todos tirados ou mortos, e o pagus carregara os seus jarros até aqui em cima o verão inteiro, e a nascente correra um polegar de largura — ergueu o polegar; era a mesma história que a velha guardava, a moeda mais antiga do pagus, gasta lisa de tanto passar de mão em mão — e a família vivera; e a prova disso, disse ele, estava sentada na frente dele aproveitando o bem do vinho dele.
E houve conversa sobre a cidade, como sempre havia, e por uma vez foi leve. Os homens da medição tinham ido e vindo o outono inteiro com as suas varas e a sua polidez; os juramentos nas pedras tinham sido tomados nesta primavera na forma devida, Reburrus depondo entre os primeiros; e a palavra de Reburrus sobre a coisa toda correra o pagus até cada casa a ter de cor, do jeito que as leituras dele sempre corriam: estão descobrindo que a escrita está errada. A verdade é boa para nós. Disse-o outra vez naquele dia, na grama, aos homens em volta de Boutius, e os homens assentiram devagar, provando aquilo como se prova o vinho; e Aunia, ouvindo, deixou entrar enfim. A primavera inteira tinha mantido aquela esperança na soleira, alimentando-a mas sem a deixar entrar em casa — esperança come como hóspede e trabalha como vizinho, dissera a mãe dela — mas o dia era o dia; a água tinha a sua lã e o seu azeite; o marido dela estava rindo; e ela pensou: talvez. Talvez a escrita se acerte, e o fantasma saia do campo, e o nome por cima dos quarenta iugera, quando toda a correção estiver feita, seja o nome do homem que arrancou o socalco do espinhal, ou o do filho dele, ou o do filho do filho dele. A cidade nunca na vida dela tinha feito ao pagus uma pergunta e escrito a resposta — e este ano tinha feito. Alguma coisa virara. Que virasse até o fim.
Desceram no ouro comprido da tarde, o pagus inteiro no caminho estreito com o canal conversando à mão direita agora, carregando cestos vazios e crianças dormindo, e o velho andou tudo, devagar, a mão no ombro do menino no lugar íngreme junto da segunda curva; e não se arrependeria amanhã, disse ele, porque de um dia assim um homem não se arrepende, ele apenas paga por ele, o que é diferente. Abaixo deles a vega se abria verde na última luz — o trigo enchendo, as vinhas em folha, os canais riscados por tudo aquilo como a escrita que a terra fazia sobre si mesma, mais verdadeira que a da cidade — e a propriedade deles na cabeceira de tudo, telhado e figueira e eira, pequena e inteira e deles, dissesse o que dissesse qualquer pedra.
No seu próprio portão, na última luz, Aunia contou afinal — uma vez, de propósito, do jeito que se risca a linha debaixo de uma coluna. O que o dia tinha tomado: uma manhã de forno, o jarrinho de azeite, um jarro de vinho, uma moeda de cobre que ela vira entrar na água e de que não sentiria falta até que alguma conta sentisse, a força dos seus homens gasta em jogos. O que o dia tinha dado. Ficou de pé no portão com o jarrinho vazio leve na mão, e a conta não fechava, e ela ficou contente com isso. Não havia total. Era o único dia do ano que saía, todo ano, impagável e não devido.
Fosse o que fosse que o verão guardasse, tinham tido isto, inteiro, e não se podia tirar aquilo de dentro deles. Não disse a ninguém. Guardou onde guardava tudo o que importava, na cabeça, onde escrita nenhuma chegava.