ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
PARTE II — A CORREÇÃO

Capítulo 13 — Primavera seca

O céu começou a trapacear em fevereiro, e Marcellus, que passara um ano aprendendo como este distrito trapaceava, reconheceu o método na hora: nada recusado, tudo adiado.

Choveu. Pouco, em intervalos corteses, cada aguaceiro anunciado por uma grande procissão de nuvens vinda da serra e cada um entregando menos do que a sua carta prometia. O inverno saiu manso. A primavera entrou limpa e azul, dia após dia de um tempo que os homens elogiavam nos portões — ano bondoso, excelência, ano bondoso enfim — e ele ficava de pé nas boas manhãs da cidade sendo cumprimentado pelo céu, e guardava para si o que pensava, porque desde os últimos dias de fevereiro vinha guardando uma tábua que não mostrava a ninguém, e a tábua não concordava.

Assentava as chuvas do jeito que assentava as remessas: o dia, a duração da queda, o que os canais mostravam na manhã seguinte. Assentada assim, a conta do céu lia-se como a do distrito se lia um ano antes — pagamentos curtos, cartas bonitas — e pelas Calendas de março a semelhança tinha deixado de ter graça. O branco saíra da serra um mês antes da hora: o ombro alto da cordilheira, que num ano comum segurava a neve até abril e a pagava o verão inteiro ravina abaixo, devedor lento mas bom, estava pardo contra o azul. Os canais da vega corriam um palmo abaixo da marca da primavera. Havia poeira nas estradas no tempo da aradura; as cegonhas dos poços da cidade baixa, que dormiam até junho, já rangiam pelos Idos; e de manhã a névoa que devia ficar de pé nos prados do rio até a terceira hora tinha ido embora na primeira, como homem que sai cedo para não dar de cara com os credores.

Mas foram as estantes que o convenceram, porque eram sempre as estantes. O vale lera o céu muito antes dele, e a leitura do vale estava assentada, na única prosa que o distrito nunca falsificou: a dos seus empréstimos. A semeadura de outono tinha entrado em terra seca e vindo rala; os homens aravam por cima do que falhara e semeavam de novo, e para semear duas vezes um homem toma semente emprestada; e os contratos de semente iam aos notários, e os rolos dos notários vinham, na sua estação, sob a ordem permanente da comissão, ao tabularium. Philon, pondo os assentos de contrato desta primavera ao lado dos do ano passado, deu o achado na moeda de sempre.

— Nove empréstimos de semente assentados até este dia na primavera passada, senhor — disse. — Nesta primavera, quarenta e um. E na primavera anterior aos nove, sete.

Alinhou as tábuas borda com borda, com exatidão, como se o alinhamento fosse a sentença.

— O vale não acredita no ano bondoso.

Nem Marcellus, a essa altura. O que ele não podia fazer era nada de muito grande a respeito, e a descoberta disso veio-lhe pelo ordo, na segunda feira de março, quando pediu licença para lhes falar sobre o estado dos celeiros e foi ouvido com a cortesia cautelosa que a cidade agora guardava para ele do jeito que outras cidades guardam uma roupa de festa: tirada do baú, escovada, vestida com dureza, guardada de volta.

Preparara a sua matéria com cuidado, em números, o que ele ia aprendendo ser ao mesmo tempo a sua força e o que o entregava. O celeiro público da cidade continha tanto; as reservas particulares declaradas — tinha as declarações por direito do mandato, e exercera o direito com delicadeza, uma folha por casa, um censo de jarros — continham tanto mais; contra isso estavam as bocas da cidade, as bocas dos pagi, e uma colheita que cada modius de semente emprestada assentado nos rolos dos notários dizia que viria curta. O grão estava a quatro sestércios o modius na feira daquela manhã, preço ainda sem medo nenhum dentro. Não ficaria. Propôs que a cidade comprasse enquanto o preço ainda era um preço: guardar contra o verão, sem alarde, uma reserva comprada a quatro que de outro modo seria mendigada a doze; a arca aguentava agora e não aguentaria depois; ele poria a sua própria gente no trabalho da compra, e o nome do ordo em cima de tudo.

Não o recusaram. O distrito nunca lhe recusava nada; fazia um ano que ele vinha aprendendo a fundura daquela cortesia. Silo elogiou com generosidade a vigilância do comissário — e olhou, uma vez só, para as outras obrigações da arca, das quais as paredes da cúria guardavam um mapa mural que só ele enxergava: o fundo da embaixada, os jogos devidos do ano, os reparos da ponte, a posição da cidade na província, todas as dignidades compradas que eram, para Silo, não vaidade, mas a subida lenta da cidade rumo à posição a que um dia se falaria em latim de igual para igual. E dos bancos velhos Memmius Vetus, sem se levantar, observou que tinha setenta anos e já enterrara primaveras secas antes; que a serra sempre pagava até os Idos de maio; que grão comprado caro no medo era a única colheita que este vale nunca falhava em recolher; e que os moços — inclinou-se, amável, na direção de ninguém em particular — ainda não tinham visto tempo bastante para saber quanto tempo há. A sala riu, agradecida, o riso de homens a quem se entrega uma razão para ficar com o seu dinheiro. A proposta foi dada a três homens para pesar, que deviam relatar até as Calendas de maio; e a escolha dos três, Marcellus soube pelos nomes escolhidos, era onde o ordo enterrava aquilo que não podia recusar com decência; e a sessão passou à questão dos jogos.

Assentou o dia sem comentário. O seu mandato ia até a inquirição, não até a despesa: poder para contar cada jarro do distrito e poder nenhum para encher um. Ele mesmo redigira mandatos assim, uma vez, em Corduba, e admirara a prudência deles.

A primavera da própria comissão, entretanto, corria por duas estradas, e ele cavalgou as duas. O medidor — mantido pela primavera a uma palavra de Celer, a última e melhor das confirmações do ano — trabalhava os pagi de baixo com os seus rapazes e as suas varas, fechando em torno do distrito o anel da medição, e Marcellus andava muito na vega com ele, como escrevera a Porcia que andaria: de pé nos cantos com a folha do censo na mão, ouvindo a fórmula gasta correr outra vez — da pedra fendida até a água, como meu pai me mostrou — enquanto o pagus fazia parede em volta, um júri a quem em quarenta anos ninguém uma vez sequer tinha perguntado nada. A direção do erro se mantinha, pagus após pagus, para baixo na terra boa, para baixo em toda parte onde as dívidas dormiam em Tarbessa, até que o achado deixou de ser achado e virou paisagem. E em abril subiu de Corduba um oficial moço, homem quieto do pessoal do tribunal, com uma voz de cópia limpa, e tomou os depoimentos na forma devida junto às pedras de divisa — Reburrus e dois dos seus vizinhos depondo sob juramento, na pedra de Fulvius, sobre o homem que juramento nenhum conseguia produzir; outros em outras pedras, em outros pagi, o mesmo — e os rolos desceram o rio lavrados a limpo, para estar na pauta do tribunal desde o primeiro dia, exatamente como fora instruído. Um ano de vara e lucerna, reduzido enfim a instrumentos que um tribunal podia levantar. Nas mesmas tábuas foi o seu relatório sobre a segurança das estradas, o corredor até o porto com preço posto de meia milha em meia milha contra os comboios do ano; percorrera a pé o mau terreno para escrevê-lo, e ainda não sabia o que tinha nomeado.

A resposta de Celer aos dois despachos — os depoimentos confirmados, o relatório das estradas recebido — subiu nos primeiros dias de maio, breve, exata e trazendo, como sempre, uma frase a mais do que o assunto pedia.

Os depoimentos estão bem lavrados; a pauta os tem; ouvirás na estação devida. O teu relatório sobre as estradas fica anotado, e ao prefeito do Castellum foi dada vista dele, que é toda a guarnição que o fiscus mantém para tempo dessa espécie. Quanto ao outro tempo: li a tua conta da primavera, e acredito nela, e não posso fazer nada com ela. O fiscus não tem coluna para chuva, comissário. O lançamento é o lançamento; foi feito a partir da terra, e a terra está lá; anos secos são a razão por que os deuses deram aos homens celeiros e vizinhos. Olha pelos dois. — Mais uma coisa. A sorte caiu para o ano que vem: o procônsul será Decimus Terentius Gallus, homem das legiões da Síria outrora, ultimamente de tempo nenhum em particular. Tarbessa votou-lhe honras antes mesmo de ele embarcar. Tira a conclusão que quiseres; eu já tirei a minha. O mandado está de pé. Corrige cedo. — T. Mettius Celer.

Leu-a à janela, duas vezes, e viu que aprendera por inteiro o dialeto do procurator, do jeito que se aprende uma língua estando aquartelado dentro dela: a frase que importava vinha com a roupa mais simples. Olha pelos dois. Celeiros e vizinhos. Celer vira o feitio do verão desde Corduba com a mesma clareza com que os devedores do vale o tinham visto dos seus campos ralos em fevereiro — vira-o, pusera-lhe preço e o guardara onde o fiscus guarda toda coisa verdadeira e inconveniente, debaixo de o lançamento é o lançamento; e a frase sobre vizinhos não era conselho, era geografia: havia um vizinho neste vale com grão, e Celer sabia o nome dele, e o escrevera sem o escrever, com a mesma mão que em dezembro lhe dissera para voltar da mesa daquele vizinho de mãos vazias.

Maio tornou a seca oficial no calendário do próprio vale, que não guardava Calendas mas conhecia a sua água ao dedo. A chuva que os velhos tinham prometido para os Idos veio no próprio dia — Vetus era pontual até no erro — uma tarde baixa e cinzenta dela, morna, mansa, breve; assentou a poeira das estradas e levantou o cheiro de terra molhada para dentro da cidade, e no foro os homens ficaram de pé debaixo dela com a cara para cima; e na manhã seguinte os canais não tinham subido nada, e a serra estava exatamente igual de parda, e Marcellus assentou a queda na sua tábua do tempo em quatro palavras e entendeu que acabara de ver o distrito ser pago da chuva do seu ano na moeda do próprio distrito: uma carta de escusa, lindamente redigida, remetendo um pouco por conta.

Depois disso o vale parou de fingir, e ele também. Na última feira do mês ficou um tempo na borda do foro escutando, do jeito que virara o seu ofício: o preço do grão, que subira a cinco e agora era dito com uma pequena pausa na frente, a pausa que os homens guardam para número que está andando; e um guarda de canal da vega do meio, na cidade por causa da comporta de um vizinho aberta de noite fora da vez, a primeira briga de água do ano a chegar às muralhas, e não, disse o guarda, com a certeza plana de quem cita escritura, a última, porque os pagi da cabeceira estavam tomando as suas vezes inteiras e a cauda já estava curta, e era maio; a água seria lei até agosto, dissesse o que dissesse a escrita, ou haveria ferro nas comportas no escuro de alguma lua. Escutou, e deu à briga a sua direção — os edis agora, o tribunal depois, se durasse — e subiu de volta ao tabularium pelo cheiro de poeira, fazendo o que fizera o mês inteiro, a coisa que não conseguia parar de fazer e que já tinha parado de querer parar: ler o ano que vinha do jeito que lia um rolo, assento por assento, cada um puxando o seguinte numa letra que ele conhecia.

Porque agora conseguia ver aquilo inteiro, do jeito que vira a fraude em agosto — tudo de uma vez, frio, as colunas fechando uma na outra com o estalinho de coisa que se encaixa por ter sido feita para encaixar. A colheita rala: os empréstimos de semente diziam, os canais diziam, o céu dissera na sua única prestação cortês. Preços na marca da fome pelo alto verão, e os três sestércios do jornaleiro comprando poeira. A arca da cidade já empenhada duas vezes, a proposta do celeiro ainda com os seus três pesadores até que a necessidade dela estivesse além de discussão e o preço além de pagamento. O lançamento de pé em duzentos e vinte e cinco por cima de tudo, indiferente como a verga de uma porta. E depois o socorro — porque haveria socorro; fome num distrito sob correção era coisa que Corduba não podia bancar e que Marcellus não sobreviveria; e socorro era grão; e o grão deste vale estava, enfileirado e coberto e seco, nos armazéns que ele percorrera numa noite de novembro no passo de um convidado, atrás dos cais de uma cidade que votara honras ao procônsul que entrava antes mesmo de ele embarcar. Água no ano seco. Nas condições de sempre. Recusara a taça em novembro por sua própria conta. Estaria de volta àquela mesa em julho pela conta do distrito, e toda parte na transação o soubera antes dele, e o ano fora armado assim — não, corrigiu o assento, na honestidade que guardava para a noite, ninguém armara nada; era esse o tamanho inteiro da coisa; o ano simplesmente viera, do jeito que os anos vêm, e a ordem estabelecida do vale era a forma em que o ano se despejava, seca ou cheia, correção ou nenhuma; Macer não precisava armar. Precisava apenas segurar o seu chão e manter o seu grão seco, e o próprio tempo dava a volta, de poucos em poucos anos, fiel como juro, para lembrar ao vale de quem era o rio.

Na última noite de maio, Marcellus fechou a tábua do tempo — cheia agora, uma estação de faltas assentada a limpo — e guardou-a na arca com os rolos da medição e o resto dos instrumentos do ano, onde ela parecia, pensou, inteiramente em casa: mais uma conta de promessas contra entregas, faltando-lhe apenas um réu. Fazia um ano e uma estação que vinha aprendendo a ler este distrito, e aprendera, e nesta primavera o aprendizado virara-lhe na mão como ferramenta com gume dos dois lados. Lera o verão antes que ele chegasse. Podia nomear, hoje, em maio, quem passaria fome em julho, quem venderia, quem emprestaria, quem levaria a culpa, e em cuja cera as dívidas novas do ano seriam assentadas pelos homens de túnica boa às portas; estava certo, sabia que estava certo, e estar certo não comprava absolutamente nada: nem um modius para dentro do celeiro, nem um palmo de neve para cima da serra — previsão sem poder, a aritmética do mandato, exata até a última cláusula. A competência era agora o pavor. Tinham virado um instrumento só.

O leitor do distrito, assentou naquela noite, no registro particular, leu este ano a sentença do distrito. Nada nos poderes que me foram concedidos vai até comutá-la.

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