ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII

Capítulo 10 — Tarbessa

O convite subiu com os últimos barcos da estação, e isso era já a primeira mensagem: quem lhe marcara a hora conhecia o rio, e quisera que a visita caísse quando o movimento do ano estava acabando e um homem podia ser dispensado do seu trabalho — ou visto a deixá-lo.

Veio em bom papiro, numa letra exercitada que não era a de quem assinava, e não pedia nada e oferecia tudo: Gaius Fadius Macer, de Tarbessa, ao excelentíssimo comissário — a honra da sua companhia, antes que o inverno fechasse as estradas; a hospitalidade de uma casa que recebia os hóspedes do distrito, atrevia-se a lembrar quem escrevia, desde antes de o distrito ter comissários; e nenhuma estação tão própria como o fim da vindima para que vizinhos se conheçam. Marcellus leu-o duas vezes e tomou-o, como tomava tudo agora, por documento: a lisonja exata, a hora exata, e por baixo da cortesia, apagada e certa como uma escrita antiga debaixo de uma folha raspada, a coisa mesma — o homem que se abrigava atrás de metade dos assentos das estantes estava pedindo para olhar para ele.

Ele foi. Philon, ao saber, não disse nada com grande precisão durante uma manhã inteira. Mas a guerra — Marcellus ainda não a chamava assim, e não tinha palavra melhor — seria travada em salas como aquela sala, e comandante que não quer olhar o terreno merece o que o terreno lhe faz; e havia isto além, que ele só confessou à estrada: queria ver o homem. Pode-se ler um vale o ano inteiro e nunca lê-lo tão bem como no rosto do homem em volta do qual ele se arrumou.

Tarbessa ficava a um dia de cavalgada por cima da cumeeira, no conventus vizinho, e anunciava-se do jeito que a riqueza se anuncia, baixo, em materiais. Cardena era cal e pedra honesta; Tarbessa tinha mármore na escadaria do templo e bronze nas portas de homens de quem Marcellus nunca ouvira falar. A cidade assentava sobre um trecho de água mais largo e mais lento, com cais mais compridos que os de Cardena e armazéns alinhados como coortes, e no rio tudo trabalhava; mesmo nos últimos dias da estação os carregadores andavam num passo que em Cardena teria sido comentado como emergência em algum lugar.

Macer recebeu-o à porta da própria casa, e essa era a segunda mensagem: nenhum intendente de permeio, nenhuma espera entre clientes no átrio; o grande homem na sua soleira, de mão estendida, como entre iguais — ou como se recebe, em pessoa, uma entrega de algum valor. Não era nada do que Marcellus se permitira imaginar. Sessenta anos, talvez; túnica sem enfeite, de lã que a mulher de um decurião teria achado modesta; mão seca, sem anéis; um rosto magro, atento, bem curtido de tempo, que passaria em qualquer feira do vale por rosto de lavrador cuidadoso que se dera bem e continuava a contar com o mau tempo. O latim dele era sem pressa e exato, com a cadência do rio por baixo. Parecia, pensou Marcellus — e guardou o pensamento na hora, e ele voltou a noite inteira, obediente como cão —, um homem que fazia as contas de cabeça. Um comissário da melhor espécie. Um colega.

Antes do jantar houve o passeio, porque Marcellus pedira — amavelmente, como quem é do ofício a quem também é — para ver os armazéns, e Macer concordara com a presteza de quem mostra o que não se pode esconder e sabe disso. Percorreram o cais comprido no começo do escuro: grão bastante debaixo de um telhado para alimentar Cardena até a primavera; azeite aos milhares alinhados esperando a navegação do ano seguinte; lã, couros, ferro trabalhado; e no fim da fileira, à parte, de pedra onde o resto era madeira, uma casa baixa de uma porta e nenhuma janela, que Macer não se ofereceu para abrir nem passou depressa. — A sala da cera — disse, sem peso. — Papel envelhece mal em armazém de azeite; guardamos no seco. Os negócios do vale fazem um certo volume, com os anos, de escritas. — Dizia os negócios do vale do jeito que outros homens dizem as minhas terras, sem cor, e seguiu andando; e Marcellus, ao passar por aquela única porta cega, ouviu com o ouvido de dentro as estantes do tabularium, e entendeu que lhe estavam mostrando, com cortesia perfeita, o segundo arquivo — aquele que nunca precisara ser falsificado, porque registrava, em qualquer letra e em qualquer língua, apenas coisas verdadeiras: este tomou emprestado, este renovou, o filho deste ficou por fiador; o registro de quem não podia dizer não. Metade da vega dorme naquela sala, pensou; e o homem que a guardava observava, ao seu cotovelo, que as últimas chuvas tinham sido boas para a sementeira de inverno.

Ao jantar eram três: Macer, Marcellus e um parente idoso que provava as coisas e não disse nada a noite inteira, presente, calculou Marcellus, para que ninguém pudesse jamais dizer que os dois tinham jantado a sós. A comida era do próprio vale, feita com simplicidade e perfeição; o vinho era melhor do que tudo o que havia na mesa de Silo, e servido cerca de metade das vezes. E a conversa, por duas horas, foi a melhor volta pelo distrito que alguém lhe dera até então, porque Macer tratava do vale como Celer tratava de renda: nenhuma história sem uma soma dentro dela em algum lugar, nenhum elogio sem uma colheita. Falou da ponte de Cardena, refeita depois da cheia — a inscrição do ordo dizia um nome, e o dinheiro tinha dito, observou ele sem calor, vários outros. Do ano caro sob Nero, quando o grão subira o rio por risco de Tarbessa e a preço de Tarbessa, e o preço fora lembrado por mais tempo que o risco, o que era, disse ele, o costume dos preços. De dotes que tinham atado as famílias das duas cidades por quatro gerações; da arca da cidade de Cardena, que tomara emprestado de Tarbessa em três reinados — "renovada a nada, mais anos do que meu pai achava prudente; arca também é vizinha". Sempre um nós: nós achamos; nós carregamos; nós sempre entendemos assim. Marcellus escutou do jeito que lia rolos, à procura da letra debaixo das letras, e a letra era esta: o vale possuía uma constituição que ninguém votara, escrita na sala da cera, renovada em todas as Saturnais, e o homem do outro leito não se gabava dela, o que seria vulgar e, pior, inexato. Estava recitando o registro. Estava mostrando ao comissário as contas, assento por assento, de tudo o que o vale já devia — para que o comissário meditasse no que a correção faz a uma construção em que toda pedra sustenta carga e toda dívida é a viga do telhado de alguém.

As ofertas vieram com a segunda mesa, em ordem cortês, cada uma formulada de modo que aceitar fosse natural e recusar não fosse nada.

Primeiro, a informação.

— A sua medição — deixou a palavra assentar um momento, sem comentário, o fato de ele a saber fazendo o próprio serviço — já lhe terá mostrado que os registros erram. Sabemos disso há anos, de um modo geral; quem empresta vê a diferença entre a terra de um homem e a folha dele mais cedo que qualquer avaliador. A minha gente tem memória comprida e nenhuma elegância. Se alguma vez a comissão quiser saber como certo assento veio a ficar como está — em particular, para poupar ao público o vexame de famílias honradas apanhadas em erros velhos —, a minha memória está ao seu serviço.

O que era o mesmo que dizer: deixe-me apontar-lhe que fios puxar e quais deixar, e fique a me dever o mapa.

— A comissão toma o que sabe sob juramento e sob selo — disse Marcellus. — Mas assentarei a gentileza.

— Assente — concordou Macer, à vontade, como se alguma coisa tivesse ficado concluída.

Segundo, o empréstimo. Veio vestido de compaixão pelo ordo de Cardena, aquele corpo de homens excelentes e aflitos. Dezembro apertava-os; o lançamento era o lançamento; e distrito em correção — usou a palavra com brandura, como médico — era distrito cujo crédito pedia uma mão firme. A arca de Tarbessa, ou a dele próprio, podia completar a entrega de Cardena este ano a uma palavra: os atrasados pagos até o último sestércio, o quaestor sereno, o procurator contente; e o comissário livre para corrigir com vagar, sem os totais do ano de pé em cima dele como credor. Tudo isso a condições que envergonhariam um templo.

— Reviravolta — disse Macer — também é custo, excelência. O mais caro de todos. Coluna nenhuma o mostra, e mesmo assim se paga; pergunte a qualquer homem que passou por uma cheia ruim. O que eu ofereço é o que sempre ofereci a este vale. Água no ano seco. Nas condições de sempre.

E ali estava, inteiro, exposto com a modéstia de quem passa o sal: a quota toda saldada por um só risco de estilete na sala da cera — a falta que ele fora mandado caçar simplesmente paga, a pressão desfeita, as provas sem objeto, a correção adiável por tempo indeterminado, o fiscus satisfeito, todo mundo aquecido; a doença do distrito curada por dose maior da mesma doença, e a cura renovável em todas as Saturnais seguintes, a juro, saída da única arca que se alimentava exatamente do arranjo que a correção mataria; e Marcellus sozinho naquela sala sabendo que tomar a água era conceder, para sempre, de quem era o rio.

— O crédito da cidade é do ordo para empenhar, não meu — disse ele. — Levarei a oferta ao duovir. Ela lhe faz honra.

Cada palavra verdadeira, e o conjunto nada: a oferta não fora feita ao ordo, e ambos sabiam que Silo não poderia tocá-la enquanto a comissão estivesse na cidade; e Marcellus viu a recusa que não era recusa atravessar a mesa e ser recebida, pesada e assentada sem um tremor de pálpebra — pedido; respondido; sem alteração; transportado, a juro, para outro ano — exatamente a aritmética da mesa de dia de feira debaixo da arcada, paciente como água. Macer inclinou a cabeça uma distância pequena, honrando a forma.

— O senhor faz contas com cuidado — disse. — É o que dizem do senhor. Nisso somos parecidos.

E então, servindo com a própria mão, com bondade, no tom que se usa para as tolices dos moços promissores:

— Ainda que me digam que o senhor passa as noites, nestes tempos, medindo fantasmas. Serviço duro, na sua idade, fantasma. Não pagam nada, e têm tantos amigos.

O parente provou alguma coisa. As lucernas ficaram paradas. Era, em oito meses, o mais perto que homem algum do vale chegara de nomear a coisa, e fora feito na própria mesa dele, em voz de pêsames, negável até a última sílaba — devaneio de velho, conversa de feira repetida, compaixão por um funcionário moço sobrecarregado; que se experimentasse repetir aquilo num tribunal e se ouvisse como soava. Marcellus deu-lhe a única resposta para que sobrava lugar.

— O senhor é bem informado.

— O vale é uma casa só — disse Macer. — A notícia atravessa-o como corrente de ar. Velho sente corrente de ar, excelência. É toda a sabedoria que há em mim: sinto onde deixaram as portas abertas.

De manhã houve o presente de despedida. Trouxeram-lho à porta, embrulhado em linho, com as mulas já paradas: um estojo de estiletes de prata, obra grega antiga, deuses-rios cinzelados ao comprido, coisa que valia meio ano do salário do medidor e escolhida com perfeição insultuosa — pois o que é que o comissário manuseava o dia inteiro, o que é que ficaria na mesa de toda hora de trabalho, debaixo da mão, debaixo do olho, apanhando a luz da lucerna; presente como hóspede que não vai embora. Macer ficou ali enquanto ele desembrulhava, usando a manhã como usava a lã, com simplicidade.

— Para o trabalho — disse Macer. — Seja o que for que o trabalho ache. Respeito de velho por coisa feita a fundo.

Recusar era insulto com testemunhas; aceitar era sentar o primeiro fantasma à própria mesa; e Marcellus teve vergonha do tempo que o terceiro caminho levou para lhe chegar, e ficou mais contente do que gostaria por ele ter chegado. Fechou o linho de novo sobre a prata, devagar, e pôs o estojo nas mãos do anfitrião.

— Guarde-o para mim — disse. — Para o dia em que o registro estiver corrigido e as contas fechadas. Prefiro reclamá-lo do senhor nesse dia — quando puder ser presente, e não assento.

Por um instante — o único em dois dias — mexeu-se atrás do rosto de lavrador alguma coisa que não fora arrumada para ser vista: não raiva; interesse. O olhar de quem empresta ao ouvir, do outro lado da mesa, as suas condições voltarem reescritas, e reescritas bem. Depois passou, e o velho ia levando o hóspede até as mulas com mesuras, torcendo em voz alta para que a estrada da cumeeira fosse boa, entregando-o à estação; e a última coisa que Marcellus viu de Tarbessa foi Macer na sua porta, simples como lã, erguendo uma mão seca — o retrato, tal e qual, do amigo mais velho do vale despedindo-se de um sobrinho promissor; o que era, refletiu Marcellus subindo para o frio de mãos vazias, exatamente o que o homem acreditava ser, e nisso estava toda a dificuldade do ano que vinha.

Cavalgou a cumeeira na tarde curta, o vale abrindo-se por baixo dele cinzento e dourado, o rio um arame claro com os últimos barcos em cima, e foi fazendo as somas do dia enquanto a luz ia embora. Tinham-lhe oferecido um mapa da fraude, uma bolsa para a quota e uma peça de prata para a mesa, e ele não tomara nada e não recusara nada, e cada palavra dita naquela casa podia ser lida em voz alta diante do procurator, do procônsul e do gênio do Imperador sem uma sílaba em que se pegar; as palavras dele também — essa era a parte fria; igualara o homem adiamento por adiamento, cortesia por cortesia, e fora elogiado pelas suas contas, e o elogio era justo. Ameaça nenhuma fora feita. Nenhuma seria feita nunca. Jantara com a ordem estabelecida do vale, e a ordem estabelecida olhara do outro leito para aquilo que Corduba mandara corrigi-la, com a calma de um credor conhecendo o novo intendente do devedor; oferecera-lhe as condições que oferecia a todos, água no ano seco; e, quando ele se recusara a tirar água, assentara o fato, renovara-o a juro e mostrara-lhe com bondade a estrada que levava de volta à sua própria arca, à sua própria cera e às suas próprias colunas pacientes — e a guerra estava aberta; estava aberta, entendia agora, desde que a porta da sala da cera lhe passara pelo ombro; e seria travada como aquela casa travava, em presentes e grão e estações e paciência, até o último assento, e ganharia aquele dos dois que fizesse melhor as suas contas.

A mula achou a descida no lusco-fusco. Cardena veio subindo para ele do cinzento, lucerna a lucerna, pequena e caiada e devida; e Marcellus, descendo a cavalo para o seu próprio vale com o inverno vindo atrás, apanhou-se fazendo o que fazia desde abril com tudo o que o distrito lhe mostrava: pondo preço. E não conseguiu parar; e, naquela noite, não quis; e assentou — no registro que ia se tornando, assento por assento, a coisa mais verdadeira que ele guardava — que dos dois homens que tinham jantado na noite anterior por cima da sala da cera, só um precisara que lhe ensinassem a língua do outro, e não fora Macer.

change chapter