ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
PARTE I — A COMISSÃO

Capítulo 1 — A estrada vale acima

Do convés da barca fluvial, Marcellus contara oliveiras, e a contagem o consolara.

Era o segundo dia de viagem desde Corduba, descendo o remoinho pardo do Baetis com a correnteza fazendo seu trabalho. Os olivais corriam pelas duas margens na velha ordem em quincunce, fileira após fileira, quarenta por iugerum onde o plantio era cerrado, e ele as contara de cinco em cinco, como o vilicus do pai lhe ensinara a contar ovelhas, e chegara — descontadas as falhas, as árvores mortas, as mudas que ainda não davam fruto — a um número para duas milhas de margem que se avinha.

O mundo e a página de acordo.

Sentira, vendo passar as árvores enfileiradas, aquela satisfação particular que outros homens dizem sentir diante da música.

O afluente era outra história.

Puseram-no em terra em Portus Albus pouco depois da quarta hora, num cais de madeira empilhado de ânforas de azeite à espera do comércio rio abaixo — os grandes bojos, cada um o peso de um homem quando cheio, indo para Roma e para os exércitos como iam de todos os cais daquele rio. O azeite era a única coisa do distrito que não precisava de comissário. Acima do cais erguia-se o posto alfandegário, e em seu alpendre o rolo de contas do posto jazia aberto sob um peso, e um liberto de túnica boa via a bagagem de Marcellus desembarcar com a atenção exata e sem pressa de quem lhe põe preço. Marcellus tomou nota do posto — tomou nota de que o alpendre estava varrido, a balança nova, o registro aberto ao ar como quem nada tem a esconder, o que, em sua experiência, era coisa que só faziam os registros que nada tinham a esconder e os registros que tinham tudo — e então as mulas estavam prontas, e a estrada começou.

A estrada subia o vale com a água à esquerda, e o vale lhe mostrou suas contas.

Ele já as lera — esse era o problema: sabia com exatidão demais o que deveria estar vendo. Na câmara-forte das repartições do procurator, em Corduba, passara nove dias com os registros do distrito: os lançamentos, os atrasados, as cartas de escusa dos magistrados de Cardena, ano após ano, cada carta culpando o ano anterior. O distrito estava lançado como distrito são. O distrito pagava como distrito moribundo. Uma dessas duas coisas era mentira, e coubera a ele descobrir qual, e ele aceitara a comissão com uma gratidão que tivera o cuidado de formular como dever.

Agora o próprio vale se estendia diante dele como uma terceira testemunha, e discordava de todo mundo.

Os socalcos de baixo eram bons — oliveira velha, alguma vinha, o trigo verde de abril firme na vega por onde corriam os canais de rega. Mas acima dos canais o socalco falhava. Começou a contar parcelas abandonadas e se conteve quando a conta passou de trinta: muros desabados, o espinheiro tomando conta, aqui e ali uma oliveira asselvajada num campo de brotos seus, ainda viva, ainda produzindo — árvore não se importa com o nome que está no papel —, mas sem poda, sem colheita, o fruto deixado para quem chegasse. Terra que não pagava imposto a ninguém. Terra que, pelos registros que lera, não existia; os registros só conheciam terra sã, possuidores sãos e um dinheiro que de algum modo nunca chegava.

Um menino tocando cabras pela beira da estrada parou para vê-lo passar. Marcellus ergueu a mão. O menino não respondeu de maneira nenhuma; apenas olhou, com uma paciência que não era burrice, até as mulas terem passado, do jeito que se olha o tempo.

Eles sabem de alguma coisa, pensou Marcellus. Toda alma deste vale sabe uma coisa que me mandaram cem milhas para descobrir.

Cavalgou algum tempo no exercício agradável de pôr sua ignorância em ordem. Isso também o pai lhe ensinara, ainda que sem querer: o velho Aelius fora homem de pôr tudo em ordem — a propriedade, as contas, o dia — e morrera no ano em que o mundo pegou fogo, asseadamente, na própria cama, enquanto quatro imperadores queimavam os exércitos uns dos outros, como que para demonstrar que uma ordem privada era possível qualquer que fosse a desordem pública. Marcellus o enterrara, o chorara, herdara dele quatrocentos mil sestércios em terra e posição e uma crença que na época não saberia pôr em palavras, mas que desde então, nas cartas que escrevia à noite para a mulher, chegara muito perto de formular: que o império não eram os imperadores. Que o império era isto — uma estrada, um registro, um cais, um imposto lançado com honestidade e gasto com honestidade — e que se podia fazê-lo bem, e que o homem que o fizesse bem estaria fazendo coisa que vale uma vida. Os imperadores iam e vinham em Roma como o tempo numa montanha distante. O novo, diziam, era um contador de moedas. Ótimo, pensou Marcellus, sem ironia. Os tesouros estavam vazios e os exércitos tinham de ser pagos; alguém enfim havia notado que o império andava sobre aritmética. Fora a aritmética que o convocara: um imperador precisando de dinheiro, uma província devendo-o, um distrito não o pagando e, no fim daquela longa corrente de necessidade, um comissário em cima de uma mula, trinta e um anos de idade, com a sua autoridade num estojo de documentos preso à albarda diante dele.

Sabia o documento de cor e ainda assim o releu, naquela noite, na estalagem da estrada onde pernoitaram — tirou-o do estojo, desdobrou o papiro duro e percorreu de novo as cláusulas à luz da lucerna, não pelos poderes, mas pelos muros em torno deles. Não julgará causa alguma. Se encontrasse o que começava a esperar encontrar, todo remédio estaria no tribunal de outro homem. Não comandará soldado algum. O que quer que execução significasse naquele vale, caberia a ele pedir e a outro conceder. Poder de ver tudo; poder de obrigar a nada. Entendia o desenho perfeitamente — ele mesmo redigira mandatos assim na repartição do procurator, e uma administração sábia não dá espada a um homem moço quando a tarefa pede lucerna — e ainda assim, ao dobrar a carta, flagrou em si o primeiro calorzinho daquilo que chamou de impaciência e que aprenderia, ao longo de três anos, a chamar por outros nomes.

À mulher escreveu: O vale é comprido, a estrada é boa, os atrasados têm sete anos e as cartas dos magistrados são a melhor prosa de todo o arquivo, o que te diz em que o distrito gasta o seu talento. Serei prudente. Cuida dos dentes do menino e não os deixes vender a parcela do morro enquanto o preço estiver baixo; ainda não somos grandes a ponto de podermos ser descuidados. — Acho que isto tem solução, Porcia. Acho que são números, e número sempre se resolve.

Selou a carta, e dormiu antes que a lucerna esfriasse, e por anos não soube que escrevera a frase pela qual tudo o que se seguiu mereceria ser julgado.

Cardena o recebeu no dia seguinte, ao meio-dia.

A cidade erguia-se acima da sua ponte, num ombro de morro, murada à velha maneira ibérica, com a porta romana embutida no circuito como uma correção feita por outra mão: umas oito mil almas, diziam os papéis, embora os números dos papéis fossem precisamente aquilo de que ele viera duvidar. Na ponte esperava um grupo de homens de toga — em abril, ao sol, em lã, o que lhe disse que o levavam a sério — e à frente deles veio um homem de uns cinquenta anos, com a voz forte de quem fala em câmara de conselho, que pronunciou uma saudação em latim cuidadoso e formal: a alegria do ordo, a honra da cidade, a perfeitíssima disposição do distrito de assistir em tudo à inquirição do excelentíssimo comissário. Era Marcus Helvius Silo, duovir. A alegria dele era verdadeira, o que interessou Marcellus na hora; em algum ponto do emaranhado daquela cidade havia ao menos um homem para quem uma inquirição não era ameaça, e sim esperança, e descobrir por quê valia um jantar. Atrás do ombro do duovir, os outros rostos estavam dispostos em expressões de boas-vindas das quais as boas-vindas haviam sido omitidas.

Deram-lhe as honras, as fórmulas, uma escolta de litores que a cidade não lhe devia e que ele não aceitou — um comissário não é magistrado, senhores; viajo com o meu próprio pessoal — e então, porque ele o pediu antes de pedir alojamento, o que fez de propósito para que notassem e relatassem, levaram-no ao tabularium.

Era um anexo atarracado no flanco norte da basílica, uma sala e um sótão, porta de bom carvalho e, lá dentro, cheiro de cera de abelha, poeira, papiro e rato. Estantes de tábuas de madeira alinhavam-se ao longo das paredes; acima delas, escaninhos de rolos; embaixo, arcas ferradas, os ferrolhos escurecidos de tanto manuseio. Um escravo levantou-se da mesa de escrita junto à única janela alta e ficou de pé, de olhos baixos: um grego, pelo porte, a pena ainda entre os dedos, a única pessoa que Marcellus vira desde Portus Albus que estivesse no meio de trabalho de verdade. Toda a memória do distrito estava naquela sala — cada campo, cada possuidor, cada dívida, nascimento, venda e morte que oficialmente existia e, por dedução, cada um que oficialmente não existia. Em algum lugar daquelas estantes, disso ele já tinha certeza, estava a mentira, sentada quieta entre dez mil assentos honestos e vestida exatamente como eles.

O duovir dizia alguma coisa sobre a antiguidade e a integridade do arquivo.

Marcellus parou no meio da sala pequena e girou uma vez, devagar, do jeito que o pai percorria um campo antes de fazer proposta, e sentiu — era honesto o bastante, mesmo então, para notar o sentimento, e desonesto o bastante para lhe dar o nome errado — uma felicidade pura, possessiva, quase doméstica: a felicidade de quem enfim é posto diante do problema para o qual foi feito. Aquilo parecia dever. Continuaria parecendo dever por muito tempo.

— Obrigado — disse ele. — Vou precisar de uma mesa, duas lucernas e as chaves. E o nome do seu arquivista.

— As chaves, excelência… — começou o duovir.

— As duas chaves — disse Marcellus, com afabilidade —, e hoje.

E, do lado de fora da janela alta, tênue e contínuo sob o rumor da cidade, ele podia ouvir o rio descendo o vale com tudo o que carregava, rumo ao porto, rumo ao mar, rumo a Roma, indiferente como a aritmética.

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